quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Morte e vida severina


Morte e Vida Severina
João Cabral de Melo Neto
Roteiro de Leitura
Carlos  Rogério  D.  Barreiros

UM  AUTO  DE  NATAL  PERNAMBUCANO

Morte e Vida Severina  é a narrativa em versos da viagem que o retirante Severino faz de sua terra — a serra da Costela, nos limites da Paraíba — até Recife, seguindo o curso do rio Capibaribe. Chamada  auto  pelo próprio autor, assemelha-se às composições de caráter religioso ou moral dos séculos XV e XVI, cuja representação teve origem nos  Presépios, encenações do nascimento de Cristo, típicas também em Pernambuco, estado em que corre a obra de João Cabral de Melo Neto. Os versos que compõem a narrativa são predominantemente redondilhas e não apresentam estrutura rítmica regular. Divide-se o texto em dezoito quadros — cujos títulos são uma pequena síntese do que será lido adiante. Os nove primeiros retratam o curso da viagem de Severino a Recife; os outros, suas experiências na cidade que tanto esperava.
No primeiro quadro, o retirante explica ao leitor quem é e a que vai, mas se depara logo de início com uma dificuldade: como poderá identificar-se, se há tantos Severinos iguais a ele, com mães e pais cujos nomes também são extremamente comuns?

Como há muitos Severinos
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

Nota-se a despersonalização do protagonista, que ele mesmo reafirma, logo depois:

Somos muitos Severinos
iguais em tudo nesta vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.

Se se assemelha a outros tantos Severinos fisicamente, também será igual a eles na  morte severina, que explica ou condensa parte do título:

morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

A morte ocasionada pelas injustiças sociais —  de velhice antes dos trinta  e  de fome um pouco por dia — ou pela violência do sertão
— de emboscada antes dos vinte — é a mesma para todos os Severinos, fadados a ela desde o dia em que nascem. Para a compreensão do texto, é essencial a compreensão do binômio  morte/vida: repare que a narrativa, iniciada com um comentário sobre
a morte comum a todos os retirantes do sertão, é terminada com um nascimento — a explosão da vida, mesmo que Severina.
Depois de se apresentar e convidar os leitores — tratados respeitosamente por Vossas Senhorias — a acompanhá-lo em sua jornada até o Recife, o retirante  encontra dois homens carregando um defunto numa rede, aos gritos de: “ó irmãos das almas!
Irmãos das almas! Não fui eu que matei não!”. É a segunda morte com que Severino se depara: o defunto carregado morreu de
morte matada  por ter alguns hectares de terra, evidenciando, mais uma vez, a violência que é  causa mortis  no sertão:

— E era grande sua lavoura,
irmãos das almas,
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?
— Tinha somente dez quadras,
irmão das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma várzea.
— Mas então por que o mataram,
irmãos das almas,
mas então por que o mataram
com espingarda?
— Queria mais espalhar-se,
mas então por que o mataram
com espingarda?
— Queria mais espalhar-se,
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.

O diálogo tem o vocativo irmão das almas no segundo verso, criando uma ladainha. A ave-bala é a metáfora da violência praticada pelos grandes proprietários, que deixará a  semente de chumbo  guardada no cadáver. Severino propõe-se a ajudar os irmãos dasalmas a carregá-lo.
No terceiro quadro, o retirante tem medo de se extraviar porque seu guia, o rio Capibaribe, cortou com o verão, ou seja, secou. Compara-se o trajeto até Recife com um rosário cujas contas são as vilas e cidades e cuja linha é o rio: o retirante sabe que deve rezá-lo até que o rio encontre o mar, mas não é fácil porque

entre uma conta e outra conta,
entre uma e outra ave-maria,
há certas paragens brancas,
de plantas e bichos vazias,
vazias até de donos,
e onde o pé se descaminha.

Desorientado, ouve um canto distante em uma casa, onde se cantam excelências para um defunto, enquanto um homem, do lado de fora, vai parodiando as palavras dos cantadores: é mais uma morte no caminho do retirante. A paródia do homem fala das coisas de não, como se a morte severina — o defunto, curiosamente, chama-se Severino — fosse negação absoluta do que é vida:

— Finado Severino,
quando passares em Jordão
e os demônios te atalharem
perguntando o que é que levas...
— Dize que levas cera,
capuz e cordão
mais a Virgem da Conceição.
(...)
— Dize que levas somente
coisas de não:
fome, sede, privação.
(...)
— Dize que coisas de não,
ocas, leves:
como o caixão, que ainda deves

No quinto quadro, o retirante questiona-se sobre a vida e sobre a morte: talvez seja prudente parar naquele lugar para procurar
trabalho.

— Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva;
só morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida,
e é ainda mais severina
para o homem que retira).

Cansado do encontro com a morte, o retirante afirma que a pouca vida que encontrou era, também, severina. Note o jogo feito com a palavra severino, diminutivo do adjetivo severo: a vida e a morte são o mesmo, severas — porque a primeira é assolada pela segunda — e anônimas, como insinuou o próprio retirante no início da narrativa.
No sexto quadro, dirige-se à mulher na janela, que talvez lhe pudesse dar notícia de algum trabalho. No entanto, tudo que se faz naquele lugar está relacionado à morte: ela é a rezadora titular dos defuntos de toda a região. Mesmo que Severino saiba lavrar, arar,tratar de gado, cozinhar ou tratar de moenda, pouco poderá fazer ali:

— Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.
A morte atrai moradores do litoral, interessados em ganhar
dinheiro. São os retirantes às avessas:

Imagine que outra gente
de profissão similar,
farmacêuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente
da gente que baixa ao mar,
retirante às avessas,
sobem do mar para cá.

Comparam-se os trabalhos que são feitos na terra com os ofícios que a morte exige. Ela é mais lucrativa e menos trabalhosa, pois no “cultivo da morte” as pragas e estiagens são aproveitáveis:

Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar;
não se precisa de limpar,
de adubar nem de regar;
as estiagens e as pragas
fazem-nos mais prosperar;
e dão lucro imediato;
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.

A zona da mata, que parecia tão encantadora no sétimo quadro, será tão dura quanto o sertão, quando Severino assistir ao enterro de um trabalhador.

Se naquela terra  mais branda e
macia/ quanto mais do litoral/ a viagem se aproxima  a vida
não era tão áspera, parece óbvio ao retirante que ali
não é preciso trabalhar
todas as horas do dia,
os dias todos do mês,
os meses todos da vida.

No entanto, no enterro do oitavo quadro observa-se que a morte ainda se faz presente, mesmo em terra tão rica e fértil. É o trecho mais famoso do poema:

— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

Ao defunto cabe calar-se por ter recebido terra de graça. Ciente de que a vida e a morte na serra, onde nasceu, na caatinga e na zona da mata é exatamente a mesma, Severino afirma que o que o levou a retirar-se não foi a cobiça, mas a vontade de estender a vida, já que havia conseguido alcançar os vinte anos. Assim,
apressa o passo, reza a última ave-maria — isto é, atravessa a última cidade — do rosário no nono quadro e chega a Recife no décimo, em que, sentado para descansar, ouve a conversa de dois coveiros. Um deles trabalha em Santo Amaro, e por isso é invejado pelo outro, empregado da Casa Amarela, cemitério dos retirantes, dos pobres e dos miseráveis. Ambos não entendem os retirantes:

— Eu também, antigamente,
fui do subúrbio dos indigentes,
e uma coisa notei
que jamais entenderei:
essa gente do Sertão
que desce para o litoral, sem razão,
fica vivendo no meio da lama,
comendo os siris que apanha;
pois bem: quando a sua morte chega,
temos de enterrá-los em terra seca.
(...)
— Mas o que se vê não é isso:
é sempre nosso serviço
crescendo mais cada dia;
morre gente que nem vivia.
— E esse povo lá de riba
de Pernambuco, da Paraíba,
que vem buscar no Recife
pode morrer de velhice,
encontra só, aqui chegando
cemitérios esperando.
— Não é viagem o que fazem
vindo por essas caatingas, vargens;
aí está seu erro:
vêm é seguindo seu próprio enterro.

A ideia de que a jornada até Recife era, na verdade, seu próprio
funeral desanima Severino. O décimo primeiro quadro é um
monólogo em que a ideia do suicídio, à beira do mar, em um
cais do rio Capibaribe, é sugerida:

A solução é apressar
a morte a que se decida
e pedir a este rio,
que vem também lá de cima,
que me faça aquele enterro
que o coveiro descrevia.

O mestre José, carpinteiro, — não por acaso, homônimo do pai de Cristo — morador de um dos mocambos que existem entre o cais e a água do rio, surge no décimo segundo quadro para ser questionado por Severino: que valor tem a vida, se Severina até a morte? José é categórico:

— Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.

O mar citado acima é a miséria que se agiganta cada dia mais sobre os tantos severinos, mas o mestre não pensa que é necessário dobrar-se a ele. Depois de uma série de perguntas, o retirante finalmente expõe sua verdadeira intenção:

— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

Subitamente, no décimo terceiro quadro, uma mulher, da porta de onde saiu o homem, anuncia-lhe  que nasceu seu filho:

Saltou para dentro da vida
ao dar seu primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido.

É a resposta ao que Severino havia acabado de perguntar: enquanto pensava em saltar fora da vida, salta-lhe quase ao colo o filho do mestre. O décimo quarto quadro é todo de louvor ao nascido; vizinhos, amigos e duas ciganas cantam lhe a vida:

— Todo céu e a terra
lhe cantam louvor
e cada casa se torna
num mocambo sedutor.
— Cada casebre se torna
no mocambo modelar
que tanto celebram os
sociólogos do lugar.

Mesmo miseráveis, os visitantes presenteiam a criança. Cadaum dá o que pode, cobrindo o pequeno de elogios e
esperanças:

— Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago papel de jornal
para lhe servir de cobertor;
cobrindo-lhe assim de letras
vai um dia ser doutor.
O ambiente otimista é quebrado por uma das ciganas, que
anuncia como inevitável o destino do filho de José:
Cedo aprenderá a caçar:
primeiro, com as galinhas,
que é catando pelo chão
tudo o que cheira a comida;
depois, aprenderá com
outras espécies de bichos:
com os porcos nos monturos,
com os cachorros no lixo.

A vida do garoto será semelhante à de um animal. No entanto,a outra cigana enxerga um futuro melhor, ainda que sofrido:

Não o vejo dentro dos mangues,
vejo-o dentro de uma fábrica:
se está negro não é lama,
é graxa de sua máquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de maré
que vemos aqui, vestido
de lama da cara ao pé.

No décimo sétimo quadro, a criança é elogiada pelos visitantes, que a identificam com o  sim  — que se opõe às  coisas de não

— e com o  novo:
— De sua formosura
deixai-me que diga:
tão belo como um sim
numa sala negativa.
(...)
— Belo porque tem do novo
A surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
(...)
— E belo porque com o novo
todo o velho contagia.

O último quadro está reproduzido integralmente abaixo: O Carpina fala com o retirante que esteve de fora,
sem tomar parte em nada

— Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

Mesmo que não se considere apto a responder a pergunta de Severino, José afirma que a explosão da vida de seu filho, que ambos puderam apreciar, era a alternativa: mesmo com as mazelas, a vida deve ser vivida, mesmo que seja severina.

João Cabral de Melo Neto e o estilo da faca
Uma faca só lâmina



O poema “Uma faca só lâmina”, de João Cabral de Melo Neto, se compõe

de 348 versos, divididos em nove partes intituladas por letras maiúsculas de A a 

precedidas por uma introdução e seguidas de um epílogo. Cada uma contém oito

quadras de rimas pares. Ele se constrói a partir de relações comparativas,

baseadas em três objetos: a bala, o relógio e a faca. O primeiro verso já indica

tratar-se de uma espécie de discurso interrompido. O leitor se depara com a

expressão “Assim como”, que provoca a sensação de continuação de uma fala

anterior. Outras expressões, “qual”, “igual a” aparecem no restante do poema e

perpetuam essa idéia. Ao mesmo tempo, pressupõe-se um diálogo e, portanto, a

existência de um interlocutor, devido ao “vossa anatomia” presente no verso 24



A dificuldade de falar sobre o objeto leva ao uso de uma série de

metáforas. Não se consegue descrever o objeto a partir dele próprio, então se

utilizam outros objetos para construir imagens a fim de tentar chegar até ele.

Embora se encontrem no lugar da coisa comparada, não a representa, são

insuficientes. Estabelecem-se comparações, relações, porém não se chega ao

objeto por meio delas, mas ele parece se esquivar, se esvair.

Seja bala, relógio,

Ou a lâmina colérica,

É contudo uma ausência

O que esse homem leva.



A indefinição do objeto se define pela ausência, talvez, por isso, a

dificuldade, por não se conhecer os limites da ausência. Em A, três estrofes se

iniciam pelos contraditórios versos “...o que não está/ nele está como...” É a

presença da ausência, paradoxo caracterizador, que habita tanto o corpo físico

quanto o espiritual. Haveria uma condição humana de ausência, capaz de garantir

universalidade a todos os homens.



Os casos exemplares da bala, que pesa, do relógio pulsante e da faca, que

corta, suprimem metaforicamente a coisa comparada, mas ao mesmo tempo é

designada por elas como ausente. Todas as imagens carregam significações

contraditórias. Ao invadir um corpo, uma bala torna-o mais pesado, mas o que se

agrega a esse corpo, na verdade, não pretende lhe acrescentar nada, pois está ali

para lhe tirar a vida. O relógio, que pulsa impiedosamente, parece querer lembrar

que a cada movimento retira mais um instante da vida do homem, que

irremediavelmente não mais voltará.

Apesar de fazer uso da “bala” e do “relógio”, a imagem mais próxima é a da

faca, mais especificamente da “faca que só tivesse lâmina”.

porque nenhum indica

essa ausência tão ávida

como a imagem da faca

que só tivesse lâmina

O próprio título da obra já demonstra essa carência, uma faca cujo cabo lhe

falta, daí a dificuldade de pegá-la. Como segurar uma faca com apenas a lâmina?

Como manuseá-la? Quem tentar segurá-la, certamente se cortará, pois ela é toda

corte, pronta para cortar e machucar o tempo todo, totalmente potência arisca

para ferir. E essa justamente é a sua natureza: do corte, da ferida impiedosa. A

parte B se dedica a descrevê-la pela essência que a caracteriza:

medra não do que come

porém do que jejua.



Ela não perde o corte por cortar, mas por não cortar. Traz em si essa

potência inegável, que precisa se manifestar para ser ela mesma com mais

intensidade, para se mostrar em toda a sua plenitude.

a lâmina despida

que cresce ao se gastar,

que quanto menos dorme

quanto menos sono há



Os versos componentes da parte C abordam o cuidado necessário com o

objeto, no manuseio dele, ou seja, quem o utiliza deve se assegurar de algumas

precauções. Contudo, “o importante é que a faca/ o seu ardor não perca”, há os

interessados na manutenção dessa faca só lâmina para que a madeira não a

corrompa. A madeira pode corromper, por ocupar o espaço que também poderia

ser lâmina e, assim, menos lâmina, menos corte. Também a madeira constitui o

local reservado para quem pretende segurar a faca, lembrando a responsabilidade

da mão que a direciona. A faca é potência de corte, mas sozinha ela não sai do

lugar. Todo poder de destruição que encerra depende da mão humana para vir à tona.



Mesmo parada, guarda a potência “talvez que não se apague/ e somente

adormeça” na “maré-baixa”. O fato de manter-se inativa não significa que assim

permanecerá.

(Porém quando a maré

já nem se espera mais,

eis que a faca ressurge

com todos seus cristais)

Seja bala, relógio ou faca está interiorizado, como mencionado na

introdução (“enterrada no corpo”, “submerso em algum corpo”) e reiterado em G

(“encerrado no corpo”). Não se pode retirar, faz parte do ser humano, lhe é

indissociável, próprio, e do qual ninguém pode privá-lo. Uma ausência que o

integra, da qual não se pode fugir, pois lhe é inerente (“leva às vezes na carne,

“leva no músculo”), justamente a ausência que torna o corpo “mais desperto”, dá

“maior impulso” ao homem.



Afinal, a insatisfação, o descontentamento, o inconformismo levam o

homem a se superar, a ir além daquilo que esperam dele, a ultrapassar os seus

próprios limites. O desejo incontrolável nasce da falta, de uma carência

insuportável. No entanto, satisfazer um desejo nunca lhe garante a plenitude, pois

essa falta permanente, essa incompletude inerente produz mais e mais desejos

em busca de realização. O homem nunca se dá por satisfeito, nunca está

completo, sempre lhe faltará algo. É essa falta que faz ele estar sempre em busca,

à procura de. Lidar com essa eterna insatisfação e incompletude fortalece o homem.

Em volta tudo ganha

A vida mais intensa



Em meio à rotina, o lado mais cortante se revela. É preciso coragem para

se arriscar, aquilo que parece ruim, pode ser bom, depende do olhar, da vontade,

da disposição para se rasgar. Bala, relógio, faca paradas, imóveis, parecem

inofensivos, mas guardam a potência, como o homem. Basta um simples gesto

para afirmar a essência de cada uma delas, mas é necessária a atitude. No caso

do relógio, atitude em forma de reflexão (que também é ação), pensar sobre o que

se fez e o que se fará com o tempo disponível, como aproveitá-lo da melhor

maneira possível. Atitude sempre requer coragem. E pensar talvez seja o que

mais necessite disso, pois o pensamento leva o homem ao sofrimento, à angústia

de perceber os rumos que a vida tomou, ao assumir os sonhos desfeitos, as

desilusões inevitáveis.



Na parte H e no epílogo, o poema se refere explicitamente à linguagem. A

incapacidade da linguagem já se evidenciara nos primeiros versos, diante das

metáforas sempre insuficientes para se atingir o objeto. Agora se afirma a utilidade

das imagens citadas (bala, relógio, faca), pois o esforço da construção das

metáforas exige que o poeta vá além do uso cotidiano das palavras. Asfixiadas

“debaixo do pó”, “despercebidas” no dia-a-dia tornam-se “palavras extintas” “no

almoxarifado”. Para lhes dar vida novamente, é preciso recuperar a potência

oculta que as caracteriza, essência inerente sempre pronta a ser renovada.

Pois somente essa faca

dará a tal operário

olhos mais frescos para

o seu vocabulário.



A linguagem também trabalha com esse jogo de presença e ausência.

Diante do leitor, o poema está presente, mas para que se configure de forma mais

plena, requer que se leia o que está ausente e, ao mesmo tempo, presente na

ausência, nas entrelinhas dos versos. Quando a palavra se liberta do seu

referencial e, trabalhada poeticamente, contempla a ambigüidade, liberta-se das

amarras da linguagem e se faz mais linguagem. Ao rasgar a si mesma, revela-se

em toda a potência inerente de criação e, se recriando, reinventa o mundo ao

redor.



A transgressão linguística decorre justamente da capacidade

que tem o signo poético, movido pelo vigor da linguagem, de

querer ser e não apenas significar. Assim ele se configura

como um anti-signo e a ambiguidade se apresenta então,

como a marca no texto poético da ação libertadora da

linguagem. (SOARES, 1978, p.33)



Se “a criação poética é todo um trabalho de recriação e libertação”

(SOARES, 1978, p.64), todo o poema “Uma faca só lâmina” consiste numa

“dialética de aproximação a um objeto cuja própria natureza recusa a apreensão”.

(BARBOSA, 1975, p.149) O conflito dramático que alimenta a obra se baseia na

luta entre aquilo que se quer dizer e aquilo que pode ser dito. E, para poder dizer,

o poeta se utilizará de

O que em todas as facas

é a melhor qualidade:

a agudeza feroz,

certa eletricidade,

mais a violência limpa

que elas têm, tão exatas,

o gosto do deserto,

o estilo das facas.



O gosto do deserto, o estilo das facas é o estilo que norteia a própria

composição do poema. João Alexandre Barbosa considera que, na maior parte da

obra de João Cabral de Melo Neto, pode-se perceber o sentido de “imitação da

forma”, ou seja, como o poeta aprende com os objetos uma maneira de imitar a

realidade. Isso ocorre com a imagem da “pedra”, em outros poemas, e aqui no

caso da “faca”. Essas imagens expressam a linguagem da carência e da dureza,

da secura, e estabelecem a relação de dependência entre a composição e a

comunicação, pois os objetos lhe ensinam como ler a realidade, que se torna a

estratégia pela qual é possível falar no poema. Aquela experiência única que

aparentemente não se deixa apreender provoca outra experiência única, o poema,

que se multiplica nas interpretações de cada leitor. O aprendizado dessa

linguagem da carência se configura como orientação aos procedimentos que

contribuem para a intensificação daquilo que o poema diz.



O esforço desse “querer dizer” converge numa espécie de conflito

dramático existente em “Uma faca só lâmina”: insistir no dizer mesmo diante de

toda a extrema dificuldade de se expressar. Isso levaria à afirmação de Escorel

(2001, p.131) de que “a essência do drama é o conflito entre pólos contrastantes”.

Na dramaticidade do fazer de João Cabral, convivem a subjetividade lírica e o

objetivismo social. Assim, o que o define como um “poeta essencialmente

dramático” é a interação dialética do sujeito que se projeta no objeto e do objeto

que se introjeta no sujeito.



Essa tendência dialética se afirma na luta dramática das tentativas de se

conseguir falar sobre um vazio, que se exprime numa sensação de discussão

entre as metáforas de “Uma faca só lâmina”. A própria seleção dos objetos já

consiste numa escolha subjetiva, portanto objetividade e subjetividade não

constituem conceitos tão estanques e opostos quanto supõe a visão lírica

tradicional.



Por isso, Secchin (1985, p.221), formula a hipótese da poesia do menos, na

qual Cabral amputa o excesso de significações pelo “desejo de que as ‘lições’ do

real emanem de processos localizáveis nas próprias coisas, e não dos

investimentos apriorísticos da subjetividade.” Contudo, também não ocorre a mera

substituição do “culto do eu” pelo “culto do objeto”, pois essa dicotomia ingênua

deve ser questionada. A explicação do eu só tem sentido se serve para valorizar o

coletivo, que se mescla à voz individual. Qualquer poeta não deve pretender se

fechar em si mesmo para se isolar, mas encontrar o que também fala sobre os

outros homens, o universal, a fim de permitir que os leitores leiam a si mesmos e

não o poeta.



A linguagem não pode com o instante primeiro da apreensão perceptiva.

Quando se usa a linguagem, ela não substitui a experiência original, que é única,

mas cria outra realidade, o próprio poema, a partir da experiência primeira.

e daí a lembrança

que vestiu tais imagens

e é muito mais intensa

do que pôde a linguagem,

e afinal à presença

da realidade, prima,

que gerou a lembrança

e ainda a gera, ainda,

por fim à realidade,

prima, e tão violenta

que ao tentar apreendê-la

toda imagem rebenta.



Conclusão

Seja “poesia do menos” ou “imitação da forma”, independentemente de

conceitos teóricos, a poética cabralina simultaneamente constrói a sua própria

ética, que permeia toda a obra e, também, se faz presente em “Uma faca só

lâmina”.

Para Benedito Nunes (1974, p.171), a imagem da “pedra”, que contém “o

ideal ético de resistência fria, de dureza obstinada e agressividade”, se transforma

na lâmina da faca. Se a pedra conserva uma resistência moral, a faca guarda em

sua natureza cortante, aguda, penetrante e agressiva uma inquietação torturante.

A edição das Poesias Completas, de 1968, traz o subtítulo que não

constava na publicação original de 1956, em Duas Águas, “(ou: a serventia das

idéias fixas)”. Uma “ideia fixa” corresponde a um desejo obsessivo, que se

consolida pelo não agir, que se refaz de forma permanente, justamente porque

não se concretizou, “seu modo de ser é um não-ser ativo” (NUNES, 1974, p.101),

que se nutre da própria carência.

Em uma faca composta apenas de lâmina basta encostar para se dar o

corte, porque tal como se alimenta uma ideia fixa a cada dia, a lâmina guarda uma

ausência torturante dentro de si, potência pronta para se manifestar num simples

gesto. Da mesma forma, a visão ética severa, que acompanha a poética do

esvaziamento, serve não para esvaziar o homem, mas para mostrar como a falta

produz o desejo que move o ser humano, capaz de colocar em atividade o que se

mantém aparentemente inativo, porém conserva sua potência destruidora intacta

pronta para se manifestar a qualquer momento. Em Cabral, a carência e a

ausência geram produtividade, o esvaziamento constitui parte do processo para a

plenitude do ser.

Quanto mais longe se vai na literatura, mais adiante se vai no próprio

homem. A poesia é ambígua e contraditória, porque o próprio homem também é

um ser essencialmente ambíguo e contraditório. Portanto, sempre há algo a ser

explorado no reverso do que se mostra.





Roberta da Costa de Sousa, mestranda em Teoria da Literatura





EXERCÍCIOS:

(FUVEST)

Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar;
não se precisa de limpa,
de adubar nem de regar;
as estiagens e as pragas
fazem-nos mais prosperar;
e dão lucro imediato;
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.

(João Cabral de Melo Neto, Morte e vida severina)

Nos versos acima, a personagem da “rezadora” fala das vantagens de sua profissão e de outras semelhantes. A seqüência de imagens neles presente tem como pressuposto imediato a ideia de:

a) sepultamento dos mortos.
b) dificuldade de plantio na seca.
c) escassez de mão-de-obra no sertão.
d) necessidade de melhores contratos de trabalho.
e) técnicas agrícolas adequadas ao sertão.

2. (FUVEST-SP)

Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina;
 (João Cabral de Melo Neto, Morte e vida severina)

Neste excerto, a personagem do “retirante” exprime uma concepção da “morte e vida severina”, ideia central da obra, que aparece em seu próprio título. Tal como foi expressa no excerto, essa concepção só NÃO encontra correspondência em:

a) “morre gente que nem vivia”.
b) “meu próprio enterro eu seguia”.
c) “o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida”.

d) “vêm é seguindo seu próprio enterro”.
e) “essa foi morte morrida
ou foi matada?”
.



3. (FEI-SP) Leia o texto com atenção e responda à questão.

— O meu nome é Severino
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muito na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da Serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

(João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina)

É possível identificar nesse excerto características:

a) regionalistas, uma vez que há elementos do sertão brasileiro.
b) vanguardistas, pois o tratamento dispensado à linguagem é absolutamente original.
c) existencialistas, pois há a preocupação em revelar a sensação de vazio do homem do sertão.
d) naturalistas, porque identifica-se em Severino as características típicas do herói do século XIX.
e) surrealistas, já que existe uma apelação ao onírico e ao fantástico.


4. (CEFET) Assinale a alternativa INCORRETA sobre “Morte e Vida Severina”:

a) Apesar das dificuldades que se anunciam para o filho do Seu José, a perspectiva do final do poema é positiva em relação à vida.
b) Existe no poema um grande contraste causado pelo nascimento do filho do Seu José em relação à figura da morte, presente em toda a obra.
c) O adjetivo Severina, do título, tanto se refere ao nome do personagem central como às condições severas em que ele, como tantos outros, vive.
d) A indicação auto de natal não se refere somente ao sentido de religiosidade, mas também à aceitação do poder de renovação que existe na própria natureza.
e) Como em muitas outras obras de tendência regionalista, o tema central do poema é a seca nordestina e a miséria por ela criada.


5. (CEFET) Leia as seguintes afirmações sobre Morte e Vida Severina:

I) O nascimento do filho do compadre José é antagônico em relação aos outros fatos apresentados na obra, já que esses são marcados pela morte.
II) Podemos dizer que o conteúdo é completamente pessimista, considerando-se que a jornada é marcada pela tragédia da seca, o que leva Severino à tentativa de suicídio.
III) Mais do que a seca, as desigualdades sociais do Nordeste são o tema da obra.

Assinale a alternativa correta sobre as afirmações:

a) Somente I e II estão corretas.
b) Somente I e III estão corretas.
c) Somente II e III estão corretas.
d) As três estão corretas.
e) As três estão incorretas.

6. (POLI) O trecho abaixo é um fragmento de Morte e vida severina, poema escrito por João Cabral de Melo Neto. O poema conta a história de Severino, um retirante que foge da seca, saindo dos confins da Paraíba para chegar ao litoral de Pernambuco (Recife). Lá, o retirante acredita que irá encontrar melhores condições de vida. Este excerto (trecho) conta o momento em que, no final de sua caminhada, Severino chega ao litoral. Mas, mesmo ali, encontra apenas sinais de morte, como quando estava no sertão. Completamente desacreditado, sugere a um morador da região que pretende o suicídio. Então, inicia com ele uma discussão. Acompanhe:

"- Seu José, mestre Carpina
Para cobrir corpo de homem
Não é preciso muita água.
Basta que chegue ao abdômen
Basta que tenha fundura igual a de sua fome.
- Severino retirante,
O mar de nossa conversa
Precisa ser combatido
Sempre, de qualquer maneira.
Porque senão ele alaga e destrói a terra inteira. 


- Seu José, mestre Carpina,
Em que nos faz diferença
Que como frieira se alastre,
Ou como rio na cheia
Se acabamos naufragados
num braço do mar da miséria?"

(trecho tirado de teatro representado no Tuca)

O argumento central de Severino para defender sua intenção de suicidar-se é:

a) o de que o rio, tendo fundura suficiente, será o melhor meio, naquela situação, para conseguir seu intento.
b) o de que não é possível lutar com as mãos, já que as mãos não podem conter a água que se alastra.
c) o de que não é possível conter o mar daquela conversa, dada sua extensão e volume.
d) o de que a miséria, entendida como mar, irá naufragar mesmo a todos, independentemente do que se faça. 
e) o de que abandonando as mãos para trás será mais fácil afogar-se, já que não poderá nadar.


7. (IBMEC) Utilize o texto abaixo, fragmento de Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, para responder o teste.

O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

— O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria.
Deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias. 10
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
Ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.


(CAMPESTRINI, Hildebrando. Literatura Brasileira. São Paulo: FTD, 1989, p. 197-8)

Assinale a alternativa incorreta com relação ao texto de João Cabral de Melo Neto:

a) A expressão “pia”(segundo verso) refere-se à pia batismal e traz o sentido de que o personagem não tem outro nome de batismo.
b) A filiação paterna, a partir do nome Zacarias, não constitui ponto de referência para o personagem.
c) O personagem não foi batizado por ser santo de romaria e ter a paternidade desconhecida.
d) A expressão “senhor desta sesmaria” refere-se a posse de terras.
e) Fazendo uso do pronome de tratamento “Vossas Senhorias”, o personagem coloca o interlocutor numa posição hierarquicamente superior.


8. (FUVEST) É correto afirmar que, em Morte e Vida Severina:

a) A alternância das falas de ricos e de pobres, em contraste, imprime à dinâmica geral do poema o ritmo da luta de classes.
b) A visão do mar aberto, quando Severino finalmente chega ao Recife, representa para o retirante a primeira afirmação da vida contra a morte.
c) O caráter de afirmação da vida, apesar de toda a miséria, comprova-se pela ausência da ideia de suicídio.
d) As falas finais do retirante, após o nascimento de seu filho, configuram o “momento afirmativo”, por excelência, do poema.
e) A viagem do retirante, que atravessa ambientes menos e mais hostis, mostra-lhe que a miséria é a mesma, apesar dessas variações do meio físico.


9. (FUVEST) É correto afirmar que no poema dramático Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto:

a) A sucessão de frustrações vividas por Severino faz dele um exemplo típico de herói moderno, cuja tragicidade se expressa na rejeição à cultura a que pertence.
b) A cena inicial e a final dialogam de modo a indicar que, no retorno à terra de origem, o retirante estará munido das convicções religiosas que adquiriu com o mestre carpina.
c) O destino que as ciganas prevêem para o recém-nascido é o mesmo que Severino já cumprira ao longo de sua vida, marcada pela seca, pela falta de trabalho e pela retirada.
d) O poeta buscou exprimir um aspecto da vida nordestina no estilo dos autos medievais, valendo-se da retórica e da moralidade religiosa que os caracterizam.
e) O “auto de natal” acaba por definir-se não exatamente num sentido religioso, mas enquanto reconhecimento da força afirmativa e renovadora que está na própria natureza.


10. (PUCCamp) A leitura integral de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, permite a correta compreensão do título desse “auto de natal pernambucano”:

a) Tal como nos Evangelhos, o nascimento do filho de Seu José anuncia um novo tempo, no qual aexperiência do sacrifício representa a graça da vida eterna para tantos “severinos”.
b) Invertendo a ordem dos dois fatos capitais da vida humana, mostra-nos o poeta que, na condição “severina”, a morte é a única e verdadeira libertação.
c) O poeta dramatiza a trajetória de Severino, usando o seu nome como adjetivo para qualificar asublimação religiosa que consola os migrantes nordestinos.
d) Severino, em sua migração, penitencia-se de suas faltas, e encontra o sentido da vida na confissão finalque faz a Seu José, mestre capina.
e) O poema narra as muitas experiências da morte, testemunhadas pelo migrantes, mas culmina com a cena de um nascimento, signo resistente da vida nas mais ingratas condições.

11. (UEL) Em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, a palavra "severino(a)" apresenta-se como substantivo próprio, substantivo comum e adjetivo. Tal fato ocorre porque, nessa obra, a palavra "severino(a)":

a) Designa aquele que fala, além de outras personagens que, em virtude das dificuldades impostas pela vida, caracterizam-se por assumir a disciplina como norma de conduta. O termo qualifica a existência como permanente cuidado de não se expor a repreensões e censuras.
b) Designa a individualidade austera do protagonista e a individualidade flexível de outros homens e mulheres escorraçados do sertão pela seca. O termo qualifica a existência como busca constante de superação das dificuldades.
c) Designa o protagonista como ser inflexível, bem como outros retirantes que também se caracterizam pela rigidez diante da vida. O termo qualifica a existência como possibilidade de impor condições com rigor.
d) Designa aquele que fala, além de outros homens e mulheres que se caracterizam pelo rigor consigo mesmos e com os outros. O termo qualifica a existência humana como marcada pela austeridade nas opiniões.
e) Designa aquele que fala, o protagonista do auto, bem como os retirantes que, como ele, foram escorraçados do sertão pela seca e da terra pelo latifúndio. O termo qualifica a existência como realidade dura, áspera.


12. (UFOP) A partir da leitura de Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, é correto afirmar que:

a) trata-se de um texto exclusivamente narrativo, uma vez que traz o relato dos episódios de uma viagem da personagem Severino do sertão até o mar.
b) trata-se de um texto exclusivamente dramático, uma vez que é composto de falas das personagens, além de comportar rubricas com marcações cênicas bastante nítidas.
c) trata-se de um texto exclusivamente lírico, uma vez que apresenta o discurso individual de Severino, que fala de si todo o tempo.
d) trata-se de um texto cuja classificação é de tragédia pura e simples.
e) trata-se de um texto cujo gênero é múltiplo, por não se prender exclusivamente a nenhum.


13. (UFOP) A respeito de Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, é incorreto dizer que:

a) a mudança de categoria gramatical (substantivo / adjetivo) do nome Severino / Severina corresponde certamente a uma mudança na categoria social do protagonista.
b) Morte e vida severina poderia intitular-se Vida e morte severina pelo desenvolvimento da narrativa.
c) o texto adquire dimensões universais, por ampliar significativamente o drama dos desvalidos, apesar de apresentar um tema eminentemente regional.
d) uma sensível diferença existe no ritmo da narrativa: o da viagem, lento e arrastado, correspondendo à morte, e o do auto natalino, mais leve e ágil, correspondendo à vida.
e) as formas discursivas presentes no texto são diversas, notadamente os monólogos, diálogos, lamentos e elogios.


14. (UNIOESTE) Em relação à peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, todas as afirmativas abaixo são válidas, EXCETO

A) O fato em Morte e Vida Severina que comprova o subtítulo “auto de Natal” do poema-peça é o nascimento de um menino. B) Em Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto apresenta uma atitude de resignação e conformismo ante as desgraças e desesperos dos muitos Severinos.
C) O êxodo do sertão em busca do litoral não é uma solução para o retirante, pois na cidade grande encontra sempre a mesma morte severina, como revelam os dois coveiros.
D) Na cidade grande, quando não encontra uma morte severina, tem que levar uma vida severina, vivendo no meio da lama, comendo os siris que apanha em mocambos infectos.
E) A problemática apresentada em Morte e Vida Severina é basicamente de caráter social e envolve a caótica e degradante situação do homem nordestino, vitimado pelas secas, pela fome e pela miséria.





Questão 15 : O excerto seguinte, extraído do poema Morte e vida severina, foi musicado por Chico Buarque de
Holanda. Leia-o, atenciosamente; a seguir, assinale a alternativa em que os fragmentos,
considerados no contexto global do excerto,  NÃO traduzem ideias semelhantes àquelas
encerradas nos versos em destaque:

Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.
É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
É uma cova grande, para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
 
      MELO NETO, J. Cabral. Morte e vida severina. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 108.

a) “Aí ficarás para sempre,  
livre do sol e da chuva, 
criando tuas saúvas.”

b) “Trabalharás uma terra  
da qual, além de senhor,  
serás homem de eito e trator.”

c) “De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito a viração.”

d) “E agora, se abre o chão e te abriga,  
lençol que não tiveste em vida.”

e) “Se abre o chão e te envolve,  
como mulher com quem se dorme.”

Questão 16: Acerca da obra, como um todo, assinale a afirmação VERDADEIRA.

a) Severino emigra do sertão para o Recife porque nunca foi um homem afeito às agruras da vida sertaneja.
b) Na zona da mata, apesar de condições climáticas mais favoráveis, a situação não é muito diferente daquela
que Severino deixou para trás.
c) O que motivou Severino a emigrar para o Recife foram as grandes ilusões que ele nutria em relação à capital
pernambucana.
d) No desfecho, as duas ciganas vaticinam destinos completamente diferentes para a criança recém-nascida:
uma prevê riqueza; a outra, miséria.
e) O mestre carpina, com sua visão pessimista da vida, é mais um fator a contribuir para que Severino se decida
pelo suicídio.
 Morte e Vida Severina
João Cabral de Melo Neto
Roteiro de Leitura
Carlos  Rogério  D.  Barreiros

UM  AUTO  DE  NATAL  PERNAMBUCANO

Morte e Vida Severina  é a narrativa em versos da viagem que o retirante Severino faz de sua terra — a serra da Costela, nos limites da Paraíba — até Recife, seguindo o curso do rio Capibaribe. Chamada  auto  pelo próprio autor, assemelha-se às composições de caráter religioso ou moral dos séculos XV e XVI, cuja representação teve origem nos  Presépios, encenações do nascimento de Cristo, típicas também em Pernambuco, estado em que corre a obra de João Cabral de Melo Neto. Os versos que compõem a narrativa são predominantemente redondilhas e não apresentam estrutura rítmica regular. Divide-se o texto em dezoito quadros — cujos títulos são uma pequena síntese do que será lido adiante. Os nove primeiros retratam o curso da viagem de Severino a Recife; os outros, suas experiências na cidade que tanto esperava.
No primeiro quadro, o retirante explica ao leitor quem é e a que vai, mas se depara logo de início com uma dificuldade: como poderá identificar-se, se há tantos Severinos iguais a ele, com mães e pais cujos nomes também são extremamente comuns?

Como há muitos Severinos
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

Nota-se a despersonalização do protagonista, que ele mesmo reafirma, logo depois:

Somos muitos Severinos
iguais em tudo nesta vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.

Se se assemelha a outros tantos Severinos fisicamente, também será igual a eles na  morte severina, que explica ou condensa parte do título:

morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

A morte ocasionada pelas injustiças sociais —  de velhice antes dos trinta  e  de fome um pouco por dia — ou pela violência do sertão
— de emboscada antes dos vinte — é a mesma para todos os Severinos, fadados a ela desde o dia em que nascem. Para a compreensão do texto, é essencial a compreensão do binômio  morte/vida: repare que a narrativa, iniciada com um comentário sobre
a morte comum a todos os retirantes do sertão, é terminada com um nascimento — a explosão da vida, mesmo que Severina.
Depois de se apresentar e convidar os leitores — tratados respeitosamente por Vossas Senhorias — a acompanhá-lo em sua jornada até o Recife, o retirante  encontra dois homens carregando um defunto numa rede, aos gritos de: “ó irmãos das almas!
Irmãos das almas! Não fui eu que matei não!”. É a segunda morte com que Severino se depara: o defunto carregado morreu de
morte matada  por ter alguns hectares de terra, evidenciando, mais uma vez, a violência que é  causa mortis  no sertão:

— E era grande sua lavoura,
irmãos das almas,
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?
— Tinha somente dez quadras,
irmão das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma várzea.
— Mas então por que o mataram,
irmãos das almas,
mas então por que o mataram
com espingarda?
— Queria mais espalhar-se,
mas então por que o mataram
com espingarda?
— Queria mais espalhar-se,
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.

O diálogo tem o vocativo irmão das almas no segundo verso, criando uma ladainha. A ave-bala é a metáfora da violência praticada pelos grandes proprietários, que deixará a  semente de chumbo  guardada no cadáver. Severino propõe-se a ajudar os irmãos dasalmas a carregá-lo.
No terceiro quadro, o retirante tem medo de se extraviar porque seu guia, o rio Capibaribe, cortou com o verão, ou seja, secou. Compara-se o trajeto até Recife com um rosário cujas contas são as vilas e cidades e cuja linha é o rio: o retirante sabe que deve rezá-lo até que o rio encontre o mar, mas não é fácil porque

entre uma conta e outra conta,
entre uma e outra ave-maria,
há certas paragens brancas,
de plantas e bichos vazias,
vazias até de donos,
e onde o pé se descaminha.

Desorientado, ouve um canto distante em uma casa, onde se cantam excelências para um defunto, enquanto um homem, do lado de fora, vai parodiando as palavras dos cantadores: é mais uma morte no caminho do retirante. A paródia do homem fala das coisas de não, como se a morte severina — o defunto, curiosamente, chama-se Severino — fosse negação absoluta do que é vida:

— Finado Severino,
quando passares em Jordão
e os demônios te atalharem
perguntando o que é que levas...
— Dize que levas cera,
capuz e cordão
mais a Virgem da Conceição.
(...)
— Dize que levas somente
coisas de não:
fome, sede, privação.
(...)
— Dize que coisas de não,
ocas, leves:
como o caixão, que ainda deves

No quinto quadro, o retirante questiona-se sobre a vida e sobre a morte: talvez seja prudente parar naquele lugar para procurar
trabalho.

— Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva;
só morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida,
e é ainda mais severina
para o homem que retira).

Cansado do encontro com a morte, o retirante afirma que a pouca vida que encontrou era, também, severina. Note o jogo feito com a palavra severino, diminutivo do adjetivo severo: a vida e a morte são o mesmo, severas — porque a primeira é assolada pela segunda — e anônimas, como insinuou o próprio retirante no início da narrativa.
No sexto quadro, dirige-se à mulher na janela, que talvez lhe pudesse dar notícia de algum trabalho. No entanto, tudo que se faz naquele lugar está relacionado à morte: ela é a rezadora titular dos defuntos de toda a região. Mesmo que Severino saiba lavrar, arar,tratar de gado, cozinhar ou tratar de moenda, pouco poderá fazer ali:

— Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.
A morte atrai moradores do litoral, interessados em ganhar
dinheiro. São os retirantes às avessas:

Imagine que outra gente
de profissão similar,
farmacêuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente
da gente que baixa ao mar,
retirante às avessas,
sobem do mar para cá.

Comparam-se os trabalhos que são feitos na terra com os ofícios que a morte exige. Ela é mais lucrativa e menos trabalhosa, pois no “cultivo da morte” as pragas e estiagens são aproveitáveis:

Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar;
não se precisa de limpar,
de adubar nem de regar;
as estiagens e as pragas
fazem-nos mais prosperar;
e dão lucro imediato;
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.

A zona da mata, que parecia tão encantadora no sétimo quadro, será tão dura quanto o sertão, quando Severino assistir ao enterro de um trabalhador.

Se naquela terra  mais branda e
macia/ quanto mais do litoral/ a viagem se aproxima  a vida
não era tão áspera, parece óbvio ao retirante que ali
não é preciso trabalhar
todas as horas do dia,
os dias todos do mês,
os meses todos da vida.

No entanto, no enterro do oitavo quadro observa-se que a morte ainda se faz presente, mesmo em terra tão rica e fértil. É o trecho mais famoso do poema:

— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

Ao defunto cabe calar-se por ter recebido terra de graça. Ciente de que a vida e a morte na serra, onde nasceu, na caatinga e na zona da mata é exatamente a mesma, Severino afirma que o que o levou a retirar-se não foi a cobiça, mas a vontade de estender a vida, já que havia conseguido alcançar os vinte anos. Assim,
apressa o passo, reza a última ave-maria — isto é, atravessa a última cidade — do rosário no nono quadro e chega a Recife no décimo, em que, sentado para descansar, ouve a conversa de dois coveiros. Um deles trabalha em Santo Amaro, e por isso é invejado pelo outro, empregado da Casa Amarela, cemitério dos retirantes, dos pobres e dos miseráveis. Ambos não entendem os retirantes:

— Eu também, antigamente,
fui do subúrbio dos indigentes,
e uma coisa notei
que jamais entenderei:
essa gente do Sertão
que desce para o litoral, sem razão,
fica vivendo no meio da lama,
comendo os siris que apanha;
pois bem: quando a sua morte chega,
temos de enterrá-los em terra seca.
(...)
— Mas o que se vê não é isso:
é sempre nosso serviço
crescendo mais cada dia;
morre gente que nem vivia.
— E esse povo lá de riba
de Pernambuco, da Paraíba,
que vem buscar no Recife
pode morrer de velhice,
encontra só, aqui chegando
cemitérios esperando.
— Não é viagem o que fazem
vindo por essas caatingas, vargens;
aí está seu erro:
vêm é seguindo seu próprio enterro.

A ideia de que a jornada até Recife era, na verdade, seu próprio
funeral desanima Severino. O décimo primeiro quadro é um
monólogo em que a ideia do suicídio, à beira do mar, em um
cais do rio Capibaribe, é sugerida:

A solução é apressar
a morte a que se decida
e pedir a este rio,
que vem também lá de cima,
que me faça aquele enterro
que o coveiro descrevia.

O mestre José, carpinteiro, — não por acaso, homônimo do pai de Cristo — morador de um dos mocambos que existem entre o cais e a água do rio, surge no décimo segundo quadro para ser questionado por Severino: que valor tem a vida, se Severina até a morte? José é categórico:

— Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.

O mar citado acima é a miséria que se agiganta cada dia mais sobre os tantos severinos, mas o mestre não pensa que é necessário dobrar-se a ele. Depois de uma série de perguntas, o retirante finalmente expõe sua verdadeira intenção:

— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

Subitamente, no décimo terceiro quadro, uma mulher, da porta de onde saiu o homem, anuncia-lhe  que nasceu seu filho:

Saltou para dentro da vida
ao dar seu primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido.

É a resposta ao que Severino havia acabado de perguntar: enquanto pensava em saltar fora da vida, salta-lhe quase ao colo o filho do mestre. O décimo quarto quadro é todo de louvor ao nascido; vizinhos, amigos e duas ciganas cantam lhe a vida:

— Todo céu e a terra
lhe cantam louvor
e cada casa se torna
num mocambo sedutor.
— Cada casebre se torna
no mocambo modelar
que tanto celebram os
sociólogos do lugar.

Mesmo miseráveis, os visitantes presenteiam a criança. Cadaum dá o que pode, cobrindo o pequeno de elogios e
esperanças:

— Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago papel de jornal
para lhe servir de cobertor;
cobrindo-lhe assim de letras
vai um dia ser doutor.
O ambiente otimista é quebrado por uma das ciganas, que
anuncia como inevitável o destino do filho de José:
Cedo aprenderá a caçar:
primeiro, com as galinhas,
que é catando pelo chão
tudo o que cheira a comida;
depois, aprenderá com
outras espécies de bichos:
com os porcos nos monturos,
com os cachorros no lixo.

A vida do garoto será semelhante à de um animal. No entanto,a outra cigana enxerga um futuro melhor, ainda que sofrido:

Não o vejo dentro dos mangues,
vejo-o dentro de uma fábrica:
se está negro não é lama,
é graxa de sua máquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de maré
que vemos aqui, vestido
de lama da cara ao pé.

No décimo sétimo quadro, a criança é elogiada pelos visitantes, que a identificam com o  sim  — que se opõe às  coisas de não

— e com o  novo:
— De sua formosura
deixai-me que diga:
tão belo como um sim
numa sala negativa.
(...)
— Belo porque tem do novo
A surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
(...)
— E belo porque com o novo
todo o velho contagia.

O último quadro está reproduzido integralmente abaixo: O Carpina fala com o retirante que esteve de fora,
sem tomar parte em nada

— Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

Mesmo que não se considere apto a responder a pergunta de Severino, José afirma que a explosão da vida de seu filho, que ambos puderam apreciar, era a alternativa: mesmo com as mazelas, a vida deve ser vivida, mesmo que seja severina.


                                 
                        EXERCÍCIOS:

(FUVEST)

Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar;
não se precisa de limpa,
de adubar nem de regar;
as estiagens e as pragas
fazem-nos mais prosperar;
e dão lucro imediato;
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.

(João Cabral de Melo Neto, Morte e vida severina)

Nos versos acima, a personagem da “rezadora” fala das vantagens de sua profissão e de outras semelhantes. A seqüência de imagens neles presente tem como pressuposto imediato a idéia de:

a) sepultamento dos mortos.
b) dificuldade de plantio na seca.
c) escassez de mão-de-obra no sertão.
d) necessidade de melhores contratos de trabalho.
e) técnicas agrícolas adequadas ao sertão.


2. (FUVEST-SP)

Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina;
 (João Cabral de Melo Neto, Morte e vida severina)

Neste excerto, a personagem do “retirante” exprime uma concepção da “morte e vida severina”, idéia central da obra, que aparece em seu próprio título. Tal como foi expressa no excerto, essa concepção só NÃO encontra correspondência em:

a) “morre gente que nem vivia”.
b) “meu próprio enterro eu seguia”.
c) “o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida”.

d) “vêm é seguindo seu próprio enterro”.
e) “essa foi morte morrida
ou foi matada?”
.



3. (FEI-SP) Leia o texto com atenção e responda à questão.

— O meu nome é Severino
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muito na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da Serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

(João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina)

É possível identificar nesse excerto características:

a) regionalistas, uma vez que há elementos do sertão brasileiro.
b) vanguardistas, pois o tratamento dispensado à linguagem é absolutamente original.
c) existencialistas, pois há a preocupação em revelar a sensação de vazio do homem do sertão.
d) naturalistas, porque identifica-se em Severino as características típicas do herói do século XIX.
e) surrealistas, já que existe uma apelação ao onírico e ao fantástico.


4. (CEFET) Assinale a alternativa INCORRETA sobre “Morte e Vida Severina”:

a) Apesar das dificuldades que se anunciam para o filho do Seu José, a perspectiva do final do poema é positiva em relação à vida.
b) Existe no poema um grande contraste causado pelo nascimento do filho do Seu José em relação à figura da morte, presente em toda a obra.
c) O adjetivo Severina, do título, tanto se refere ao nome do personagem central como às condições severas em que ele, como tantos outros, vive.
d) A indicação auto de natal não se refere somente ao sentido de religiosidade, mas também à aceitação do poder de renovação que existe na própria natureza.
e) Como em muitas outras obras de tendência regionalista, o tema central do poema é a seca nordestina e a miséria por ela criada.


5. (CEFET) Leia as seguintes afirmações sobre Morte e Vida Severina:

I) O nascimento do filho do compadre José é antagônico em relação aos outros fatos apresentados na obra, já que esses são marcados pela morte.
II) Podemos dizer que o conteúdo é completamente pessimista, considerando-se que a jornada é marcada pela tragédia da seca, o que leva Severino à tentativa de suicídio.
III) Mais do que a seca, as desigualdades sociais do Nordeste são o tema da obra.

Assinale a alternativa correta sobre as afirmações:

a) Somente I e II estão corretas.
b) Somente I e III estão corretas.
c) Somente II e III estão corretas.
d) As três estão corretas.
e) As três estão incorretas.

6. (POLI) O trecho abaixo é um fragmento de Morte e vida severina, poema escrito por João Cabral de Melo Neto. O poema conta a história de Severino, um retirante que foge da seca, saindo dos confins da Paraíba para chegar ao litoral de Pernambuco (Recife). Lá, o retirante acredita que irá encontrar melhores condições de vida. Este excerto (trecho) conta o momento em que, no final de sua caminhada, Severino chega ao litoral. Mas, mesmo ali, encontra apenas sinais de morte, como quando estava no sertão. Completamente desacreditado, sugere a um morador da região que pretende o suicídio. Então, inicia com ele uma discussão. Acompanhe:

"- Seu José, mestre Carpina
Para cobrir corpo de homem
Não é preciso muita água.
Basta que chegue ao abdômen
Basta que tenha fundura igual a de sua fome.
- Severino retirante,
O mar de nossa conversa
Precisa ser combatido
Sempre, de qualquer maneira.
Porque senão ele alaga e destrói a terra inteira. 


- Seu José, mestre Carpina,
Em que nos faz diferença
Que como frieira se alastre,
Ou como rio na cheia
Se acabamos naufragados
num braço do mar da miséria?"

(trecho tirado de teatro representado no Tuca)

O argumento central de Severino para defender sua intenção de suicidar-se é:

a) o de que o rio, tendo fundura suficiente, será o melhor meio, naquela situação, para conseguir seu intento.
b) o de que não é possível lutar com as mãos, já que as mãos não podem conter a água que se alastra.
c) o de que não é possível conter o mar daquela conversa, dada sua extensão e volume.
d) o de que a miséria, entendida como mar, irá naufragar mesmo a todos, independentemente do que se faça. 
e) o de que abandonando as mãos para trás será mais fácil afogar-se, já que não poderá nadar.


7. (IBMEC) Utilize o texto abaixo, fragmento de Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, para responder o teste.

O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

— O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria.
Deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias. 10
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
Ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.


(CAMPESTRINI, Hildebrando. Literatura Brasileira. São Paulo: FTD, 1989, p. 197-8)

Assinale a alternativa incorreta com relação ao texto de João Cabral de Melo Neto:

a) A expressão “pia”(segundo verso) refere-se à pia batismal e traz o sentido de que o personagem não tem outro nome de batismo.
b) A filiação paterna, a partir do nome Zacarias, não constitui ponto de referência para o personagem.
c) O personagem não foi batizado por ser santo de romaria e ter a paternidade desconhecida.
d) A expressão “senhor desta sesmaria” refere-se a posse de terras.
e) Fazendo uso do pronome de tratamento “Vossas Senhorias”, o personagem coloca o interlocutor numa posição hierarquicamente superior.


8. (FUVEST) É correto afirmar que, em Morte e Vida Severina:

a) A alternância das falas de ricos e de pobres, em contraste, imprime à dinâmica geral do poema o ritmo da luta de classes.
b) A visão do mar aberto, quando Severino finalmente chega ao Recife, representa para o retirante a primeira afirmação da vida contra a morte.
c) O caráter de afirmação da vida, apesar de toda a miséria, comprova-se pela ausência da ideia de suicídio.
d) As falas finais do retirante, após o nascimento de seu filho, configuram o “momento afirmativo”, por excelência, do poema.
e) A viagem do retirante, que atravessa ambientes menos e mais hostis, mostra-lhe que a miséria é a mesma, apesar dessas variações do meio físico.


9. (FUVEST) É correto afirmar que no poema dramático Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto:

a) A sucessão de frustrações vividas por Severino faz dele um exemplo típico de herói moderno, cuja tragicidade se expressa na rejeição à cultura a que pertence.
b) A cena inicial e a final dialogam de modo a indicar que, no retorno à terra de origem, o retirante estará munido das convicções religiosas que adquiriu com o mestre carpina.
c) O destino que as ciganas prevêem para o recém-nascido é o mesmo que Severino já cumprira ao longo de sua vida, marcada pela seca, pela falta de trabalho e pela retirada.
d) O poeta buscou exprimir um aspecto da vida nordestina no estilo dos autos medievais, valendo-se da retórica e da moralidade religiosa que os caracterizam.
e) O “auto de natal” acaba por definir-se não exatamente num sentido religioso, mas enquanto reconhecimento da força afirmativa e renovadora que está na própria natureza.


10. (PUCCamp) A leitura integral de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, permite a correta compreensão do título desse “auto de natal pernambucano”:

a) Tal como nos Evangelhos, o nascimento do filho de Seu José anuncia um novo tempo, no qual aexperiência do sacrifício representa a graça da vida eterna para tantos “severinos”.
b) Invertendo a ordem dos dois fatos capitais da vida humana, mostra-nos o poeta que, na condição “severina”, a morte é a única e verdadeira libertação.
c) O poeta dramatiza a trajetória de Severino, usando o seu nome como adjetivo para qualificar asublimação religiosa que consola os migrantes nordestinos.
d) Severino, em sua migração, penitencia-se de suas faltas, e encontra o sentido da vida na confissão finalque faz a Seu José, mestre capina.
e) O poema narra as muitas experiências da morte, testemunhadas pelo migrantes, mas culmina com a cena de um nascimento, signo resistente da vida nas mais ingratas condições.

11. (UEL) Em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, a palavra "severino(a)" apresenta-se como substantivo próprio, substantivo comum e adjetivo. Tal fato ocorre porque, nessa obra, a palavra "severino(a)":

a) Designa aquele que fala, além de outras personagens que, em virtude das dificuldades impostas pela vida, caracterizam-se por assumir a disciplina como norma de conduta. O termo qualifica a existência como permanente cuidado de não se expor a repreensões e censuras.
b) Designa a individualidade austera do protagonista e a individualidade flexível de outros homens e mulheres escorraçados do sertão pela seca. O termo qualifica a existência como busca constante de superação das dificuldades.
c) Designa o protagonista como ser inflexível, bem como outros retirantes que também se caracterizam pela rigidez diante da vida. O termo qualifica a existência como possibilidade de impor condições com rigor.
d) Designa aquele que fala, além de outros homens e mulheres que se caracterizam pelo rigor consigo mesmos e com os outros. O termo qualifica a existência humana como marcada pela austeridade nas opiniões.
e) Designa aquele que fala, o protagonista do auto, bem como os retirantes que, como ele, foram escorraçados do sertão pela seca e da terra pelo latifúndio. O termo qualifica a existência como realidade dura, áspera.


12. (UFOP) A partir da leitura de Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, é correto afirmar que:

a) trata-se de um texto exclusivamente narrativo, uma vez que traz o relato dos episódios de uma viagem da personagem Severino do sertão até o mar.
b) trata-se de um texto exclusivamente dramático, uma vez que é composto de falas das personagens, além de comportar rubricas com marcações cênicas bastante nítidas.
c) trata-se de um texto exclusivamente lírico, uma vez que apresenta o discurso individual de Severino, que fala de si todo o tempo.
d) trata-se de um texto cuja classificação é de tragédia pura e simples.
e) trata-se de um texto cujo gênero é múltiplo, por não se prender exclusivamente a nenhum.


13. (UFOP) A respeito de Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, é incorreto dizer que:

a) a mudança de categoria gramatical (substantivo / adjetivo) do nome Severino / Severina corresponde certamente a uma mudança na categoria social do protagonista.
b) Morte e vida severina poderia intitular-se Vida e morte severina pelo desenvolvimento da narrativa.
c) o texto adquire dimensões universais, por ampliar significativamente o drama dos desvalidos, apesar de apresentar um tema eminentemente regional.
d) uma sensível diferença existe no ritmo da narrativa: o da viagem, lento e arrastado, correspondendo à morte, e o do auto natalino, mais leve e ágil, correspondendo à vida.
e) as formas discursivas presentes no texto são diversas, notadamente os monólogos, diálogos, lamentos e elogios.


14. (UNIOESTE) Em relação à peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, todas as afirmativas abaixo são válidas, EXCETO

A) O fato em Morte e Vida Severina que comprova o subtítulo “auto de Natal” do poema-peça é o nascimento de um menino. B) Em Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto apresenta uma atitude de resignação e conformismo ante as desgraças e desesperos dos muitos Severinos.
C) O êxodo do sertão em busca do litoral não é uma solução para o retirante, pois na cidade grande encontra sempre a mesma morte severina, como revelam os dois coveiros.
D) Na cidade grande, quando não encontra uma morte severina, tem que levar uma vida severina, vivendo no meio da lama, comendo os siris que apanha em mocambos infectos.
E) A problemática apresentada em Morte e Vida Severina é basicamente de caráter social e envolve a caótica e degradante situação do homem nordestino, vitimado pelas secas, pela fome e pela miséria.





Questão 15 : O excerto seguinte, extraído do poema Morte e vida severina, foi musicado por Chico Buarque de
Holanda. Leia-o, atenciosamente; a seguir, assinale a alternativa em que os fragmentos,
considerados no contexto global do excerto,  NÃO traduzem ideias semelhantes àquelas
encerradas nos versos em destaque:

Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.
É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
É uma cova grande, para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
 
      MELO NETO, J. Cabral. Morte e vida severina. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 108.

a) “Aí ficarás para sempre,  
livre do sol e da chuva, 
criando tuas saúvas.”

b) “Trabalharás uma terra  
da qual, além de senhor,  
serás homem de eito e trator.”

c) “De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito a viração.”

d) “E agora, se abre o chão e te abriga,  
lençol que não tiveste em vida.”

e) “Se abre o chão e te envolve,  
como mulher com quem se dorme.”

Questão 16: Acerca da obra, como um todo, assinale a afirmação VERDADEIRA.

a) Severino emigra do sertão para o Recife porque nunca foi um homem afeito às agruras da vida sertaneja.
b) Na zona da mata, apesar de condições climáticas mais favoráveis, a situação não é muito diferente daquela
que Severino deixou para trás.
c) O que motivou Severino a emigrar para o Recife foram as grandes ilusões que ele nutria em relação à capital
pernambucana.
d) No desfecho, as duas ciganas vaticinam destinos completamente diferentes para a criança recém-nascida:
uma prevê riqueza; a outra, miséria.
e) O mestre carpina, com sua visão pessimista da vida, é mais um fator a contribuir para que Severino se decida
pelo suicídio.

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