terça-feira, 24 de julho de 2012

Jacó e Raquel


Jacó encontra-se com Raquel

Depois disse Labão a Jacó: Porque tu és meu irmão, hás de servir-me de graça? Declara-me qual será o teu salário.
E Labão tinha duas filhas; o nome da mais velha era Lia, e o nome da menor Raquel.
Lia tinha olhos tenros, mas Raquel era de formoso semblante e formosa à vista.
E Jacó amava a Raquel, e disse: Sete anos te servirei por Raquel, tua filha menor.
Então disse Labão: Melhor é que eu a dê a ti, do que eu a dê a outro homem; fica comigo.
Assim serviu Jacó sete anos por Raquel; e estes lhe pareceram como poucos dias, pelo muito que a amava.
E disse Jacó a Labão: Dá-me minha mulher, porque meus dias são cumpridos, para que eu me case com ela.
Então reuniu Labão a todos os homens daquele lugar, e fez um banquete.
E aconteceu, à tarde, que tomou Lia, sua filha, e trouxe-a a Jacó que a possuiu.
E Labão deu sua serva Zilpa a Lia, sua filha, por serva.
E aconteceu que pela manhã, viu que era Lia; pelo que disse a Labão: Por que me fizeste isso? Não te tenho servido por Raquel? Por que então me enganaste?
E disse Labão: Não se faz assim no nosso lugar, que a menor se dê antes da primogênita.
Cumpre a semana desta; então te daremos também a outra, pelo serviço que ainda outros sete anos comigo servires.
E Jacó fez assim, e cumpriu a semana de Lia; então lhe deu por mulher Raquel sua filha.
E Labão deu sua serva Bila por serva a Raquel, sua filha.
E possuiu também a Raquel, e amou também a Raquel mais do que a Lia e serviu com ele ainda outros sete anos.
Bíblia Sagrada Gênesis 29,15-30.






Leia agora esse soneto de Luiz Vaz De Camões:

Sete anos de pastor, Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: - Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida

CAMÕES,Luis Vaz de.Camões – obras completas,4.ed.Lisboa:Sá da Costa,19715v




RELEITURA CAMONIANA DO AMOR BÍBLICO EM “SETE ANOS DE PASTOR JACÓ SERVIA”

CARLA DA PENHA BERNARDO*




A história do amor de Jacó por Raquel, presente no Gênesis, cap. 29., v. 15 e ss., está inserida em um contexto mais amplo, que envolve a questão da inveja de Jacó em relação a seu irmão Esaú, bem como o ludíbrio daquele em relação a seu pai. Para que compreendamos de que modo Camões se apropria e transforma esse tema bíblico, urge resumirmos a narrativa bíblica.
Entre os gêmeos Esaú e Jacó, aquele foi o primeiro a nascer. Como primogênito, Esaú teria todos os direitos de herança e de mando, o que causava a rivalidade do irmão. Chegando a hora da morte do pai, Isaque, como último desejo antes da bênção que daria a Esaú, pede ao filho que prepare uma carne. A mãe, Rebeca, sabendo disso, e mostrando preferência pelo mais jovem, prepara ela mesma o prato e manda Jacó, vestido com roupas do irmão, passar-se por ele diante do pai já cego, a fim de que ele receba a bênção. Ludibriado, Isaque o abençoa, provocando o desejo de vingança de Esaú em relação a Jacó. O pai e a mãe, então, mandam o filho para a casa de Labão, seu tio, onde Jacó entra em contato com Raquel e Lia. A partir daí, o que se passa entre os primos pode ser lido no soneto camoniano.
Contrastando o resumo que acabamos de ler com o soneto camoniano, podemos notar que o autor se apropria do tema bíblico, dando-lhe, contudo, uma nova feição, mais sentimental. Assim, é esquecida a referência bíblica ao fato de que Jacó teria ludibriado não somente seu irmão, “comprando” sua primogenitura, mas principalmente seu pai, Isaque, já às portas da morte. Este lhe teria dado a bênção, devida ao filho Esaú, por acreditar tê-lo diante de si.
Toda essa questão da primogenitura, tão importante nos antigos textos bíblicos e que diz respeito a Esaú e Jacó, bem como às irmãs Raquel e Lia (ou Léia),[2] é obliterada por Camões. A primogenitura é a causa por que também Jacó, de algum modo, é ludibriado por seu tio e pai das moças. O caráter moral do castigo pregado com a mesma peça pelo destino ao jovem Jacó sequer é referido no soneto quinhentista. Aí, o que importa é o sentimentalismo, a questão amorosa, que, embora não estando ausente das páginas bíblicas, não ganha, nestas, o mesmo realce que a questão da idade das irmãs.
De fato, sete anos servindo como pastor é a proposta feita por Jacó a seu tio Labão, a fim de receber, em casamento, a jovem Raquel, de quem se enamorara. “Mas”, afirma o sujeito lírico, “não servia ao pai, servia a ela/ E a ela só por prêmio pretendia”, tal qual ocorrera no texto bíblico.
Fugido da casa paterna e da vingança de Esaú por astúcia da mãe e por conselho do pai, Jacó, chegando à casa de Labão, não busca mais que um favor – refugiar-se. Assim, num primeiro momento, não fala sequer em salário pelos serviços que prestará. Mas Labão exige que haja a paga e o “prêmio” desejado por Jacó é o amor de Raquel, conquistado após sete anos de trabalho:
Aconteceu que Labão tinha duas filhas. O nome da mais velha era Léia, e o nome da mais moça, Raquel. Mas os olhos de Léia não tinham brilho, ao passo que Raquel se tinha tornado bela de figura e bela de semblante. E Jacó amava Raquel. De modo que ele disse: “Estou disposto a servir-te sete anos por Raquel, tua filha mais moça. /..../ E Jacó passou a servir sete anos por Raquel, mas eles se mostraram aos seus olhos como sete dias, por causa do seu amor por ela.[3]
Trazer à baila a questão da idade das moças diluiria a autenticidade e a profundeza do amor de Jacó. No texto bíblico, o amor é mais superficial, porque ligado à matéria e a sua efêmera beleza de forma enfática – “Raquel tinha se tornado bela de figura e bela de semblante”; no soneto, há referência não apenas à beleza de Raquel (“serrana bela”), realçando-se também o sentimento amoroso de maneira enfática. Por essa razão, ressalta-se a servidão amorosa de Jacó de uma forma mais tipicamente medieval no modo como o soneto se inicia e se fecha, ou seja, com os sete anos da espera, que se renova de forma cíclica: “Sete anos de pastor Jacob servia/ Labão /..../”; “/..../ Começa de servir outros sete anos”, apontando-se, ainda, para uma posterior renovação da espera nos dois últimos versos: “/..../ Dizendo: – Mais servira, se não fora/ Pera tão longo amor tão curta a vida”.
A servidão amorosa também é assinalada pela grande recorrência do verbo “servir” no poema (levando-se em conta sua extensão), o qual chega a aparecer duas vezes no mesmo verso “mas não servia ao pai, servia a ela”.
Diferentemente do recorte feito por Camões, o texto bíblico segue detalhadamente o destino de Jacó antes e depois de seu caso de amor. Comparemos ambos os textos, ainda que sucintamente, a fim de notarmos o quanto Camões selecionou certos elementos bíblicos com o intuito poético.
No dia de núpcias, Jacó descobre ter sido enganado por Labão, que lhe oferece Léia como esposa. Indignado pelos anos perdidos e pelo ludíbrio, dirige-se ao tio e recebe como resposta:
Não é costumeiro fazer assim no nosso lugar, dar a mais jovem antes da primogênita. Celebra plenamente a semana desta mulher. Depois se há de dar a ti também esta outra mulher, pelo serviço que podes prestar-me por mais sete anos. Concordemente, Jacó fez assim e celebrou plenamente a semana desta mulher, após o que lhe deu Raquel, sua filha, por esposa. /..../.
Daí teve também relações com Raquel e expressou também mais amor por Raquel do que por Léia, e foi servir-lhe mais sete anos.[4]
Mais do que o referido acima, a Bíblia dá conta de que Jacó, casado com Léia e Raquel, recebe ainda suas criadas como mulheres, tendo filhos e filhas com todas. Ora, nada menos propício ao intuito do amoroso poeta quinhentista do que os detalhes dos costumes antigos, daí o recorte feito por Camões.
Atente-se para o fato de que, na Bíblia, a idéia de renovar o prazo em troca de Raquel parte de seu pai, e não de Jacó. Apesar disso, em um e em outro texto é realçada a preferência do jovem por esta irmã.
No texto bíblico, embora partindo a idéia de Labão, Jacó aceita o novo prazo, renovando a esperança e a crença no amor, mas por um tempo estipulado – outros sete anos – e não mais por ele, e sim pelo sogro. No cíclico poema, como vimos, o prazo se renova.
Um fato a assinalar é o de que duas visões se apresentam no soneto – de um lado, a das tradições bíblicas com que o pai, em lugar de Raquel, oferece a filha mais velha; de outro, a de Jacó, figura muito mais próxima dos amorosos pintados pelo petrarquismo ou pelo Renascimento. Duas vozes de tempos distintos se batem e, disso, advém uma certa tragicidade nos sucessos dos amores de Jacó por Raquel e no desengano, mas, ainda assim, na renovada esperança com que ele a aguarda:

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Pera tão longo amor tão curta a vida.

Mais uma vez, é o sentimento que se realça nesses versos camonianos. Repare-se que, inicialmente, a tristeza de Jacó se dá por não haver recebido a moça pretendida, mas também pelo fato de ser ludibriado, após sete anos de labores e de esperanças. O que se aguardaria, pois, seria seu desesperançar; contudo, e aí está o grande momento do soneto, não apenas o jovem reafirma sua fé no amor, mas propicia seu acrescentamento com a renovada promessa de duplicação do tempo de espera: “Começa de servir outros sete anos,/ Dizendo: – Mais servira, se não fora/ pera tão longo amor tão curta a vida.”
É neste momento de capital importância que o poeta acentua o aspecto dramático do poema, inserindo, pela única vez, em discurso direto, as palavras de Jacó. E o mais importante: lembrando-se o esquema dos sonetos italianos de tese, antítese e síntese, coincidindo esta última com o terceto final, e, sabendo-se que as palavras finais, sobretudo no soneto, são as mais importantes, a jura de amor renovado e acrescentado de Jacó a sua Raquel é o que de fato singulariza mais poeticamente o soneto camoniano face à narrativa bíblica.
Repare-se ainda que a desilusão (presente no primeiro terceto) em virtude dos anos perdidos, do ludíbrio e do sonho não realizado ganha também sua singularidade nos dois últimos versos da estrofe: “Lhe fora assi negada a sua pastora,/ Como se a não tivera merecida”. Diante disso, muitas possibilidades se mostravam a Jacó – ele poderia recriminar os Fados, os costumes, o tio Labão, sua própria ingenuidade... Talvez até a não interferência, por mínima que fosse, da jovem Raquel, malgrado os costumes da época ou, ao menos, algum sinal da reciprocidade de seu sentimento. No entanto, assume o amador toda a responsabilidade pelo caso, alçando a coisa amada a um patamar supremo, além do que estava, na crença de seu merecimento: “Como se a não tivera merecida”. Mas a culpa não é propriamente do amador, visto que, diferentemente do que ocorre na Bíblia, ele aqui não é um sujeito que erra e é castigado. Sua única pena aqui é a amorosa e seu único erro advém da ingenuidade com que se fia em quem pensa que ele, Jacó, pudera não ter merecido Raquel.
Raquel tem, pois, mais valia do que o próprio amador pudera imaginar e do que qualquer amador, por mais amoroso e paciente que fosse, poderia supor. Por isso, sete anos de pastor são insuficientes como paga pelo amor da jovem. E também mais sete, e mais sete, e mais sete. Na multiplicação de um número não aleatório, mas de muito cabalístico, Jacó reafirma ad infinitum tanto seu sentimento amoroso como a singularidade do objeto de seu amor.
Vale notar que as muitas simbologias do número sete ratificam a noção de acrescentamento utilizada pelo poeta a fim de singularizar o sentimento de Jacó por Raquel. Assim, de acordo com o Dicionário de símbolos de Chevalier,[5] o sete simboliza “os sete graus da perfeição”. Para os egípcios, ele é símbolo da vida eterna, correspondendo a um ciclo completo, de perfeição dinâmica. O sete indica uma mudança depois de um ciclo concluído e de renovação positiva. Indica ainda a totalidade do espaço e do tempo, visto que o 4 simboliza a terra (com seus quatro pontos cardeais) e o 3 simboliza o céu. O sete representa a totalidade do universo em movimento. Além disso, certos setenários (aquilo que vale ou contém sete) são símbolos de outros. O setenário resume também a totalidade moral, acrescentando as 3 virtudes teologais – a fé, a esperança e a caridade – às 4 virtudes cardeais – a prudência, a temperança, a justiça e a força. O número 7 é o símbolo universal de uma totalidade, mas de uma totalidade em movimento ou de um dinamismo total.
Em resumo: o sete é o símbolo de um ciclo positivo de mudança em seu grau de perfeição, inclusive no que tange à moral do indivíduo. Enquanto perfeição, que se renova numa multiplicação ao infinito, o sete é o sinal da eternização. Isso corresponde à idéia presente na conclusão do soneto nas palavras de amor renovado de Jacó por Raquel. Portanto, na espera pelo amor absoluto e perfeito, o Jacó camoniano, muito mais intensamente do que o personagem bíblico, confirma e ratifica a eternidade de sua escolha amorosa e do objeto de seu amor, ao abrir e fechar o soneto com a alusão aos sete anos e ao verbo que atravessa todo o poema, “servir”, indicador de sua fidelidade amorosa.


BIBLIOGRAFIA
CAMÕES, Luís de. Obras completas. Pref. e notas de Hernâni Cidade. Lisboa: Sá da Costa, /1946/. V. 1.
- - - - - -. Lírica. Introd. e notas de Aires da Mata Machado Filho. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1982.
CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, /1982/.
CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
LAGARDE, André & MICHARD, Laurent. XVIe siècle. Paris: Bordas, 1949. pp. 119-166.
LANSON, Gustave. Histoire de la littérature française. /Paris/: Hachette, 1951.
MACEDO, Helder. Camões e a viagem iniciática. Lisboa: Moraes, 1980. pp. 9-32.
- - - - - -. Apetite e Razão na Lírica Camoniana. In: Gil, Fernando e MACEDO, Helder. Viagens do olhar. Retrospecção, visão e profecia no Renascimento português. Porto: Campo das Letras, 1998. pp. 371-394.
MARTINS, Cristiano. Camões. Temas e motivos da obra lírica. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1981.
PEIXOTO, Afrânio. Camões lírico. In:___. Ensaios camonianos. Rio de Janeiro; São Paulo; Porto Alegre: W. M. Jackson, 1947, v. XIX.
- - - - - -. Dinamene, alma minha gentil. Lisboa: Biblioteca Nacional de Lisboa, 1926.
SARAIVA, António José & LOPES, Oscar. História da literatura portuguesa. Porto: Porto, s. d.
SILVA, Vítor Manuel de Aguiar e. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina, 1979.
TRADUÇÃO do Novo Mundo das Escrituras Sagradas. Trad. da versão inglesa de 1984. São Paulo: Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, /1986/.

* Doutoranda em Literatura Portuguesa (UFRJ).

segunda-feira, 23 de julho de 2012

As Vinhas da Ira

I
As vinhas da ira: entre realismo e simbologia, 
una página da história americana

Steinbeck nasceu em 27 de fevereiro de 1902 em Salinas, Califórnia. Apesar de ter estudado diversos anos na Universidade de Stanford, saiu sem graduação e passou a trabalhar como operário para sustentar-se enquanto escrevia. Seu primeiro romance foi publicado em 1929, mas foi somente a partir da publicação de Tortilla Flat, em 1935, que o autor alcançou o reconhecimento da crítica e do público. Seu sucesso literário continou com In dubious battle (1936) e com Of mice and men (1937). As vinhas da ira (1939) conferiu a Steinbeck o Prêmio Pulitzer. Nessas obras, os temas proletários se acham expressos pelo retrato dos trabalhadores desarticulados e despossuídos que habitavam sua região. Os romances Of mice and mene As vinhas da ira foram mais tarde transportados para o cinema.
Em 1943 Steinbeck viaja para a África do Norte como correspondente de guerra. Alguns de seus últimos trabalhos incluem Cannery Row (1945),The pearl (1947), East of Eden (1952), The winter of our discontent (1961) e Travels with Charley (1962). Produziu também diversos “scripts” para o cinema, incluindo a adaptação de dois entre seus trabalhos mais curtos: The pearl e The red poney. Steinbeck morreu em Nova Iorque em 20 de dezembro de 1968. Em praticamente toda sua obra, o autor revelou um interesse profundo na motivação que determina a conduta humana, ao criar um mundo por vezes irreal que poderia equilibrar, amenizar o mundo mau e cruel que era o mundo real , um mundo que ele próprio vivenciou. Para isso ele recorreu freqüentemente a um simbolismo amplo que lhe angariou inclusive alguns fracassos, entre alguns grandes sucessos literários.
Condecorado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1962, John Steinbeck é mais lembrado por seu romance As vinhas da ira que narra a história de uma família de trabalhadores rurais migrando do estado de Oklahoma para a Califórnia, e que descreve a desesperança gerada pela Grande Depressão americana.
O caráter realista e os aspectos simbólicos constituem um binômio de difícil convivência, um equilíbrio delicadíssimo, uma façanha literária que John Steinbeck consegue levar a cabo com extraordinária habilidade e sensibilidade nessa obra marcante. As constantes dicotomias que perpassam o romance dão espaço para o realismo mais cruel aliado a um sopro continuado de poesia, que nasce do contraste feito símbolo, um leitmotiv que acompanha a narrativa fazendo-lhe o contraponto.
Comecemos, pois, pela simbologia, considerando o termo lato sensu, conforme Beigbeder, que conceitua o símbolo como a tentativa definitória de toda realidade abstrata, sentimento ou idéia, invisível aos sentidos, sob forma de imagens ou objetos e que possui um sentido subjetivo, oposto à alegoria, cujo significado encontra-se normalmente a grande distância dos termos que a compõem.2 São os símbolos, atravessando todo o texto, que criam o contraste poético na história trágica de uma família de agricultores retirantes de Oklahoma, em sua viagem desesperada rumo ao Oeste americano, em busca de trabalho, de sobrevivência, em busca dos verdes e ricos pomares, dos vinhedos e dos algodoais da Califórnia, onde eles anseiam resgatar sua própria condição de seres humanos e de trabalhadores da terra.
Já o título apresenta-se altamente simbólico: As vinhas da ira. As vinhas são o verde vale da Califórnia, presentificando a fartura, o alimento, o trabalho e o bem-estar que delas deverão advir. Ouçamos a voz de Avô, alvoroçado com o projeto da Califórnia, em sua ingênua e infantil credulidade:
Queria estar na Califórnia, onde posso apanhar laranjas quando quiser. Ou então uvas. São coisas que nunca tive bastante. Vou pegar um grande cacho de uvas e esfregar ele na cara e deixar que escorra pela barba abaixo.3
A ira conota uma busca dolorosamente frustrada. A ira é o sentimento que se apodera dos retirantes quando percebem que foram atraídos para uma falsa Canaã, onde a exploração do homem pelo homem alcança picos de terrível injustiça social, de violência moral e física e que toma o lugar da esperança, tornando-se desespero, culminando na luta silenciosa das greves, não já por melhores salários, mas, acima de tudo, pelo próprio alimento básico e vital.
Em seu ensaio sobre poesia e linguagem, Pearson fala de uma renovação literária que parece ter contagiado, entre muitos grandes nomes do período, certamente também Steinbeck:
Embora o movimento naturalista tenha fornecido o impulso e muito do material necessário para uma literatura americana moderna e vigorosa, ela ainda se ressentia de uma forma e linguagem adequadas para adquirir inteira expressão como arte. Conforme assinalou Edmund Wilson em Castelo de Axel (1931), um segundo movimento, chamado indiferentemente simbólico ou analítico, logo providenciaria o equilíbrio necessário e isso se tornou possível nas décadas de vinte e trinta a fim de que os americanos colocassem as suas experiências do mundo moderno em obras significativas da arte literária (meu grifo).4
Na epopéia moderna de Steinbeck, que reflete justamente essas experiências, está implícita uma mitologia que se presentifica pelos símbolos atravessando o romance praticamente desde a primeira até a última página. É o fogo crepitando no fogão, é o fogo improvisado no terreiro, sempre arrumado e avivado, significando a família, o lar, o aconchego, o calor, a união. É o alimento sendo preparado no fogo e distribuído para a família, mesmo quando o único produto disponível é um punhado de farinha de milho que mal possibilita cozinhar um mísero pirão. Um alimento que, em sua extrema pobreza, reúne a família, tendo como pilar-mestre a figura onipresente de Mãe em sua luta pela preservação do núcleo familiar. O alimento como suporte da vida, por mais precário que seja, ainda é o traço comum que congrega os pobres comensais, acampados em tendas, possuindo por assento apenas alguns caixotes de madeira que serão sucessivamente rachados para preparar novo fogo necessário às refeições, quando houver. Fogo e alimento, mas também a palavra de Mãe que consola, que aquieta o desespero, com os símbolos que ela mesma cria, ao confortar o marido já desesperançado:
E isto é mais uma das coisas que uma mulher sabe com certeza. Eu também fiquei sabendo. O homem vive saltando degraus... nasce uma criança e morre um homem, e cada vez que isso acontece é um salto nos degraus da vida ... Ele arranja uma fazendinha e perde uma fazendinha, e isto são também saltos. Para a mulher, tudo corre sem parar, que nem um rio; cheio de redemoinhos e turbilhão e pequenas cachoeiras,mas correndo sem parar. É assim que a mulher encara a vida. A gente não se entrega, a gente continua...muda, talvez, um pouco, mas continua sempre firme. [...] tudo que a gente faz deve ter continuação. Eu penso assim. Mesmo a fome...mesmo a doença. Alguns morrem, mas os que sobram tornam-se mais fortes. O que vocês têm que fazer é viver somente o dia de hoje, de dia para dia (p. 585-586).
A secura das terras de Oklahoma, o calor estafante e úmido, o pó que tudo cobre e embota são o retrato da miséria e do abandono, quando a perda das terras, pela impossibilidade de resgatar as hipotecas que sobre elas pesam, expulsa, por meio dos tratores, (mais um símbolo da violência e da desumanidade) os pequenos agricultores de seus campos empobrecidos, mas ainda assim muito amados:
Os tratores invadiram as terras, enormes monstros de ferro a se moverem qual insetos, possuidores da ligeireza dos insetos. Os tratores rastejavam pelas terras, imprimindo nelas as marcas de suas correntes [...]. Monstros de nariz chato, a levantar a poeira, enfiando nela o focinho, marchando firmes pelas terras duras, arrasando cercas, não respeitando cabanas, demolindo tudo na sua rota implacável (p. 50).
Secura, pobreza e abandono que contrastam com as terras verdejantes e férteis da Califórnia para onde a família se dirige cheia de esperança. Aqui, na Califórnia, é a vida. Lá, em Oklahoma, é a morte. A suavidade e a brancura imaculada do algodão sendo colhido: Algodão branco, brotando qual pipoca (p. 562) e as mãos rudes e calejadas dos trabalhadores marcam, uma vez mais, o contraste simbólico com o ambiente duro e sujo em que eles vivem e os algodoais limpos, suaves e promissores de bem-aventurança.
Filas de trabalhadores, movimentando-se através dos campos. Pegando com os dedos. Dedos apalpadores procuram, retiram e acham os flocos. Quase sem olhar. Aposto que podia colher algodão até se fosse cego. Nas pontas dos dedos tenho um palpite pra apanhar os flocos de algodão. ‘Tou fazendo um trabalho limpo, limpo que nem um assobio (p. 563).
O velho hábito da família, de lavar-se antes de comer, ferrenhamente preservado por Mãe, mesmo nos momentos de maior tensão e angústia, parece simbolizar o seu desejo de estabilidade, a necessidade de manter a família unida e normal, mesmo nos rudes acampamentos que os retirantes organizam em sua caminhada rumo ao Oeste. A família não pode desintegrar-se; eis uma frase freqüentemente repetida por Mãe:
Tudo o que nos resta é a família, é a nossa união. Não tenho medo de nada, enquanto estivermos todos juntos. Não quero que a gente se separe. (...) com a minha família é diferente: ela não pode desunir-se. Prefiro rachar a minha própria cabeça, mas não vou permitir isto ( p. 228).
O hábito de lavar-se antes das parcas refeições que não conseguem saciar-lhes a fome é, simbolicamente, o gesto que salva, que reúne, que mantém o lar e a família como tais. Mas a simbologia do romance e a poesia que contrasta com o realismo da descrição-narração não são perceptíveis apenas nos atos concretos. O contraste simbólico se dá ainda em um nível maior e mais sutil, implícito nas mais ricas passagens do texto.
Pecado e redenção são vias de mão dupla no romance. Esse binômio se realiza através de Tom Joad, o filho mais velho, recém-saído da penitenciária em liberdade condicional, por ter assassinado um homem que o ameaçara em uma briga. Através de Tom Joad, novamente assassino, quando se vê envolvido com o grupo de trabalhadores liderados por Casy, o pregador, na greve contra a exploração dos fazendeiros que querem pagar pouco mais de dois “cents” para a colheita nos pomares e nos algodoais. Novamente um crime não premeditado, não desejado. Tom mata mais por lealdade a Casy, assassinado brutalmente, do que para defender-se. O binômio se realiza através do mesmo Tom, agora fugitivo, aconselhado por Mãe a deixar o seu esconderijo em um cano de esgoto, para procurar salvar-se; do mesmo Tom que continuará a luta de Casy. Levando consigo o ensinamento bíblico, estará assumindo a causa comum dos deserdados, redimindo-se assim do duplo homicídio. Antes da fuga, ao despedir-se de Mãe, dolorosamente angustiada com o destino do filho, Tom diz:
Aí eu estarei em qualquer lugar, na escuridão, estarei no lugar que a senhora olhar à minha procura. Em toda parte onde tenha briga pra que a gente com fome possa comer, eu estarei presente. Em toda a parte onde um policial 'teja maltratando um camarada, eu estarei presente. Imagine, se o Casy soubesse disto! Estarei onde a nossa gente 'teja berrando de raiva...e estarei onde crianças 'tejam rindo porque sentem fome e sabem que vão logo ter comida. E quando a nossa gente for comer o que plantou e for morar nas casas que construiu... aí eu também estarei presente. (p. 580)
Na mesma linha de pecado e redenção, temos a cena vivida por tio John, um homem amargurado pelo fardo da culpa que o persegue, por ter deixado morrer a mulher grávida, quando ela lhe pede ajuda. Na verdade ele não acredita que ela esteja para dar à luz. É apenas a ignorância, a pobreza a gerar mais essa tragédia. Mas quando tio John é incumbido pelo irmão, pai de Tom Joad, de enterrar o bebê da sobrinha Rosasharn: uma mumiazinha, toda enrugada e de cor azul. (p. 612) - nascido morto e prematuro durante a enchente que os isola de tudo e de todos - ele, que a princípio tenta esquivar-se da penosa tarefa, em seguida consente. Não pôde enterrar o seu bebê, que sequer chegou a nascer, mas agora dará sepultura ao bebê de Rosasharn. Tio John leva então o caixote em que jaz o pequeno cadáver para longe do acampamento. Mas, ao invés de enterrá-lo, deposita-o sobre as água revoltas de um riacho que a enchente tornou violento. Ao ver o caixote - usado para o transporte de maçãs - sendo levado pela força das águas, ele, tão calado e contido, incapaz de queixas, em parte por temperamento, em parte por sentir-se tolhido pela culpa, em uma espécie de desabafo catártico, grita ao bebê:
Vai, vai rio abaixo e diz aquilo para eles. Vai descendo, e estaca na estrada, e apodrece e diz pra eles como é. É o único jeito de tu dizer as coisas. Nem sei se tu é menino ou menina, mas nem quero saber. Vai descendo e apodrece na estrada. Talvez, então, eles fiquem sabendo. (p. 618)
É nesse momento que tio John parece libertar-se em parte do peso da culpa, do sentido de culpa que até então o perseguira e, ao mesmo tempo, da incapacidade de falar no seu pecado, embora em diversas passagens ele tenha ensaiado uma confissão que ninguém está disposto a ouvir. Sequer o próprio Casy, o pregador que se juntou à família. As palavras de Tio John podem aqui ser entendidas também como uma forma de revolta pelas condições desumanas em que vive a família. Palavras que tio John jamais teria pronunciado antes, ma que agora ele consegue dizer, compelido pelas trágicas circunstâncias.
Mas é com a última cena fechando o romance que Steinbeck consegue talvez a criação de seu símbolo mais dramático e de sua marca mais poética: é quando Rosasharn, docemente instigada por Mãe, aproxima-se do moribundo faminto e lhe oferece o seio túrgido de leite, o leite que seu bebê não pôde sugar, mas que agora poderá salvar mais uma vida. Na verdade, em seu gesto, Rosasharn deseja resgatar a sua frustrada maternidade muito mais do que salvar uma vida. Em sua egocêntrica juventude, em seu egoísmo, em seu desejo de ir para a cidade grande, ter uma casa com geladeira e bastante gelo; na sua ingênua vontade de ir ao cinema com Connie, seu marido, ela seria incapaz de tal gesto, um gesto, no entanto que alcança valor e força épica.
É ainda uma vez a Mãe que sugere, apenas com um olhar:
Ssciu! - fez Mãe. Lançou olhares a Pai e tio John, que estavam contemplando o doente. Olhou Rosa de Sharon, envolta no cobertor. Seus olhares fugiram dos de Rosa de Sharon e tornaram a encontrá-los. E as duas mulheres liam tudo nas respectivas almas. A moça ofegava, respirava com um ritmo curto e apressado. Ela disse: - Sim. Mãe sorriu: - Eu sabia que tu me compreendeu. - Olhou as mãos enlaçadas com firmeza sobre o colo (p. 628).
Logo adiante, depois de todos terem saído do galpão em que a família está abrigada da enchente, Rosasharn levanta-se e aproxima-se do homem que está morrendo de inanição e que ensaia uma fraca recusa, cumprindo o prometido:
[...] desfez-se do cobertor, deixando os seios desnudos. - Tem que ser - falou, aproximando-lhe a cabeça a si.- Assim - disse. Apoiou-lhe a cabeça com a direita, e seus dedos lhe sulcaram suavemente os cabelos. Ergueu os olhos e seu olhar percorreu o galpão escuro e seus lábios cerraram-se e ela sorriu misteriosamente. (p. 629)
Um último e marcante contraste-símbolo: o leite que deveria alimentar e manter uma vida recém-iniciada é o leite que ajudará a manter uma vida que está se apagando. A Rosasharn alheia às tribulações da família, ensimesmada no seu próprio eu, praticamente insensível à situação da família e dos irmãos de desgraça, começa a tornar-se uma nova mulher, a caminho de uma maturidade que provavelmente não tardará. De fato, a simbologia aqui presente, parece enfatizar, mais que atenuar, o relismo às vezes sutil e contido, às vezes decisamente explícito.
O enredo do romance, segundo Spiller (op. cit.), seria apenas um pretexto para Steinbeck justificar a eterna e inútil busca do homem pela terra prometida, derivando disso a abundância da simbologia: “As vinhas da ira adquire tons épicos, ao reconhecer que a tragicidade da situação dos trabalhadores agrícolas migratórios [...] é somente um evento simbólico na busca eterna do homem de uma Canaã inacessível5. Mas ao leitor atento não pode passar despercebido que a trágica descrição dessa América “deprimida” é algo mais que um pretexto para a construção de um romance que denuncia e questiona, através de um estudo fundamentado, a injustiça social, a exploração do homem, a violência gratuita contra o homem, o abuso do poder, a coerção moral. Certamente há, já a partir do título, uma grande preocupação do autor em salientar o choque entre as forças materiais e espirituais. Mas a própria trama do romance, embora se encarregue de produzir essa extraordinária fusão que dá lugar ao binômio realismo/simbologia: um realismo duro e chocante aliado a uma simbologia poética que brota da fome e da comida; da aridez da terra e da fartura das vinhas; da falta de solidariedade e da humanidade; da morte e da vida, do pecado e da redenção e que sopra ininterruptamente ao longo das páginas, a própria trama consegue dar ao leitor a visualização, o retrato fiel de um período marcante e dramático da história americana.
A simbologia é marcante, mas parece que o realismo, revestido de sua moldura poética, também o é. Terra de Canaã talvez, mas ainda terra para semear e colher algodão. Os personagens do romance são homens e mulheres da terra e é somente com a terra que eles sabem viver. É uma epopéia americana moderna; e na epopéia há espaço para simbologia, poesia e realismo.
A respeito dos escritores contemporâneos de Steinbeck e do próprio Steinbeck, Philip Stern parece concordar com essa visão sócio-histórica:
[...] our writers have grown up. Tempered by adversity, toughened by depression and war, and compelled to reappraise values that once seemed fixed, American authors have poured into their writing the very stuff of American life as it was lived during an era that is already passing away.6
A própria Real Academia Sueca de Ciências, ao conferir-lhe o prêmio Nobel da Literatura em 1962, confirmou que os temas escolhidos por Steinbeck são extremamente sérios e denunciatórios, como por exemplo as greves nas plantações de fruta e de algodão da Califórnia. Greves que a polícia muitas vezes reprimiu com violência e morte.
Quando o romance veio a público em 1939, conseguiu chocar um país que ainda convalescia da depressão sofrida. A história da família Joad não constitui, de fato, apenas a poderosa dramatização da migração forçada dos “Okies”, os retirantes do estado de Oklahoma, mas também a condição de todos os deserdados do mundo, donde deriva a sua universalidade e o seu valor social, filosófico, ético e político. Nessa perspectiva, talvez se possam afiançar as palavras de Spiller. Entretanto é difícil deixar de sentir, no romance, o relato de um momento histórico que transcende a mera utopia de Canaã. Obra simbólica, épica, poética, sem duvida, mas a urdidura que a constrói permanece de insofismável cunho sociopolítico. Não são de nenhuma personagem as seguintes palavras endereçadas ao leitor. São do próprio Steinbeck, em suas reflexões-digressões através da trama do romance, quando ele se substitui aos personagens:
E tenha-se medo de quando as greves cessam, enquanto os grandes proprietários estão vivos, pois que cada greve vencida é uma prova de que um passo está sendo dado. E isto se pode saber - tenha-se medo da hora em que o homem não mais queira sofrer e morrer por um ideal, pois que esta é a qualidade-base da Humanidade, é a que o distingue entre tudo no universo. (p. 202)
As vinhas da ira é um romance que só Steinbeck, comparado em diversas ocasiões aos naturalistas europeus, poderia ter escrito. Ele próprio nasceu em uma pequena fazenda em Salinas, uma cidade de pioneiros que atravessaram as grandes planícies até o Pacífico, e são eles, esses pioneiros e seus descendentes - que construíram e tornaram rico um dos maiores estados americanos, a Califórnia - os personagens do romance: uma grande, amarga, patética, humilde e épica alegoria que comoveu a todos porque é, em seu cerne, a história “real” de seres humanos “reais”. Universal o suficiente e forte o bastante para ser definida trágica.
O tema do romance, ao enfatizar que há ainda muito por fazer:“the quest is never over”7, nas palavras do próprio autor, procura reforçar e ampliar a consciência de luta social e a necessidade de continuar essa luta: “we ain’t gonna die out. People is goin’ right on - changin’ a little maybe, but goin’ on.”8
Esse credo pessoal de Steinbeck será pronunciado, com as mesmas palavras, por Mãe Joad, a personagem-espiral, a “alma” do romance. De resto, não faltam comprovações de outros traços autobiográficos. O personagem Tom Joad resulta ser “a prova artística” do credo particular de Steinbeck:“[...] man reaches, stumbles forward, painfully, mistakenly sometimes. Having stepped forward, he may slip back, but only half a step, and never the full step back...”9 Com essas palavras sugeridas a sua personagem, o autor parece reafirmar, uma vez mais, a mudança ocorrida. Apesar das graves dificuldades, não se pode voltar atrás, é preciso continuar e ganhar novas batalhas. Pode-se voltar meio passo, nunca um passo inteiro. À nossa frente a luta continua...

Notas:
[1] Doutora em Literatura Comparada pela UFRGS. Professora do Dep. de Letras da UNISC - Universidade de Santa Cruz do Sul/RS - Brasil
[2] BEIGBEDER, Olivier. La simbología. Barcelona: Oikos-tau, 1971.
[3] STEINBECK, John. As vinhas da ira . Trad. Ernesto Vinhaes e Herbert Caro. Rio de Janeiro: Bruguera, 1972. Todas as citações foram extraídas dessa edição, constando, entre parênteses, as páginas em que poderão ser confrontadas. Para esse primeiro caso, confira-se a pág.111.
[4] PEARSON, N.H. Poesia e linguagem. In: SPILLER, Robert (Org.). A renascença literária norte-americana. Brasil: Letras e Artes, 1963.
[5] SPILLER, Robert. O ciclo da literatura norte-americana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1967. p. 237.
[6] STERN, P. Van Doren (Org.). The pocket book of modern American short stories. 2nd ed. New York: The Pocket Library, 1955. p. VI. (...) nossos escritores cresceram. Temperados pela adversidade, enrijecidos pela depressão e pela guerra, compelidos a repensar os valores que antigamente pareciam fixos, os autores americanos verteram em seus escritos o verdadeiro estofo da vida americana como foi vivida em uma era que já está indo embora. (Tradução da autora)
[7] A busca não acaba nunca. (Tradução da autora)
[8] Nós não vamos morrer. A gente vai em frente - mudando um pouco talvez - mas indo em frente. (Tradução da autora)
[9] O homem alcança, escorrega para frente, dolorosamente, às vezes. Após um passo à frente, ele pode escorregar para trás, mas somente meio passo, e nunca um passo inteiro. (Tradução da autora)

© Alba Olmi 2004
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

quarta-feira, 18 de abril de 2012

lista de obras Paes e vestibular Unimontes 20112/2013

lista de obras Paes e vestibular Unimontes 20112/2013



Autores e temas dos livros adotados pelo PAES Unimontes

LIVROS - PAES/2012




1ª ETAPA
“Rio, o Filme” - animação - direção: Carlos Saldanha
“Crônicas”, de Carlos Drummond de Andrade
“Desmundo”, de Ana Miranda
“Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei sobre o Achamento do Brasil”




2ª ETAPA
“A Escrava Isaura”, de Bernardo Guimarães
“As Vítimas-Algozes: quadros da Escravidão”, de Joaquim Manuel de Macedo
“O Navio Negreiro e outros poemas”, de Castro Alves
“Pai Contra Mãe”, de Machado de Assis




3ª ETAPA
1º E 2º PROCESSOS SELETIVOS/2013
“A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector
“Claro Enigma”, de Carlos Drummond de Andrade
“Nós e os Outros”, de Marisa Lajolo
“As Almas Encantadoras das Ruas”, de João do Rio
“Cartas para Mariana”, Osmar Pereira Oliva

conto

Pai Contra Mãe - de Machado de Assis

A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-deflandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber. perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras. O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado. Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando. Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: "gratificar-se-á generosamente", -- ou "receberá uma boa gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse. Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem. Cândido Neves, -- em família, Candinho,-- é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos. Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições. Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito. Contava trinta anos. Clara vinte e dous. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes, olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a outras. O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi-- para lembrar o primeiro ofício do namorado, -- tal foi a página inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas. --Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto. --Não, defunto não; mas é que... Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora viesse agravar a necessidade. --Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha. --Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara. Tia Mônica devia ter-lhes feito a advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi. A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma cousa e outra; não tinha emprego certo. Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia. porém, deu sinal de si a criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos. --Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe. A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era escassa, os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade. --Vocês verão a triste vida, suspirava ela. --Mas as outras crianças não nascem também? perguntou Clara. --Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que pouco... --Certa como? --Certa, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é que o pai dessa infeliz criatura que aí vem gasta o tempo? Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer. --A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau... --Bem sei, mas somos três. -- Seremos quatro. --Não é a mesma cousa. -- Que quer então que eu faça, além do que faço? -- Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu é vaga. Você passa semanas sem vintém. -- Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo. Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado. Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de cousas remotas, via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso. Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranhão. Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais, copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo aluguéis. Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do homem. --É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o equívoco e suas conseqüências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego. Cândido quisera efetivamente fazer outra cousa, não pela razão do conselho, mas por simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa. A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer. Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser mais amargos. --Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca! Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dous jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio. -- Titia não fala por mal, Candinho. --Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem, seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua. Enfim... Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor,-- crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz baixa. A ternura dos dous foi interrompida por alguém que batia à porta da rua. --Quem é? perguntou o marido. --Sou eu. Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino. Este quis que ele entrasse. --Não é preciso... --Faça favor. O credor entrou e recusou sentar-se, deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais. --Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo. Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não alcançando mais que a ordem de mudança. A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio. Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Cândido Neves, no desespero da crise começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir melhor do que cuidassem. Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu em dar a criança à Roda. "Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua dos Barbonos." Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria. Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite seguinte. Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos . As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata. Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação do menino; seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da Rua dos Barbonos. Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é que o agasalhava muito, que o beijava, que cobria o rosto para preservá-lo do sereno. Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo. --Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele. Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta. --Mas... Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona. --Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio. Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus. --Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço! -- Siga! repetiu Cândido Neves. --Me solte! --Não quero demoras; siga! Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoutes,--cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoutes. --Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves. Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele. Também é certo que não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor. --Aqui está a fujona, disse Cândido Neves. -- É ela mesma. --Meu senhor! --Anda, entra... Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta milréis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou. O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as conseqüências do desastre. Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor. Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto. --Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.Pai Contra Mãe, de Machado de Assis Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. Texto-base digitalizado por: NUPILL - Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística Universidade Federal de Santa Catarina Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para . Estamos em busca de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter este projeto. Se você quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para e saiba como isso é possível. PAI CONTRA MÃE A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-deflandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber. perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras. O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado. Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando. Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: "gratificar-se-á generosamente", -- ou "receberá uma boa gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse. Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem. Cândido Neves, -- em família, Candinho,-- é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos. Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições. Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito. Contava trinta anos. Clara vinte e dous. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes, olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a outras. O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi-- para lembrar o primeiro ofício do namorado, -- tal foi a página inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas. --Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto. --Não, defunto não; mas é que... Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora viesse agravar a necessidade. --Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha. --Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara. Tia Mônica devia ter-lhes feito a advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi. A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma cousa e outra; não tinha emprego certo. Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia. porém, deu sinal de si a criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos. --Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe. A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era escassa, os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade. --Vocês verão a triste vida, suspirava ela. --Mas as outras crianças não nascem também? perguntou Clara. --Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que pouco... --Certa como? --Certa, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é que o pai dessa infeliz criatura que aí vem gasta o tempo? Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer. --A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau... --Bem sei, mas somos três. -- Seremos quatro. --Não é a mesma cousa. -- Que quer então que eu faça, além do que faço? -- Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu é vaga. Você passa semanas sem vintém. -- Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo. Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado. Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de cousas remotas, via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso. Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranhão. Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais, copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo aluguéis. Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do homem. --É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o equívoco e suas conseqüências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego. Cândido quisera efetivamente fazer outra cousa, não pela razão do conselho, mas por simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa. A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer. Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser mais amargos. --Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca! Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dous jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio. -- Titia não fala por mal, Candinho. --Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem, seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua. Enfim... Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor,-- crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz baixa. A ternura dos dous foi interrompida por alguém que batia à porta da rua. --Quem é? perguntou o marido. --Sou eu. Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino. Este quis que ele entrasse. --Não é preciso... --Faça favor. O credor entrou e recusou sentar-se, deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais. --Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo. Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não alcançando mais que a ordem de mudança. A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio. Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Cândido Neves, no desespero da crise começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir melhor do que cuidassem. Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu em dar a criança à Roda. "Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua dos Barbonos." Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria. Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite seguinte. Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos . As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata. Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação do menino; seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da Rua dos Barbonos. Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é que o agasalhava muito, que o beijava, que cobria o rosto para preservá-lo do sereno. Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo. --Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele. Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta. --Mas... Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona. --Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio. Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus. --Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço! -- Siga! repetiu Cândido Neves. --Me solte! --Não quero demoras; siga! Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoutes,--cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoutes. --Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves. Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele. Também é certo que não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor. --Aqui está a fujona, disse Cândido Neves. -- É ela mesma. --Meu senhor! --Anda, entra... Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta milréis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou. O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as conseqüências do desastre. Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor. Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto. --Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.

. A ESCRAVA ISAURA
Bernardo Guimarães

Capítulo 1 Era nos primeiros anos do reinado do Sr. D. Pedro II. No fértil e opulento município de Campos de Goitacases, à margem do Paraíba, a pouca distância da vila de Campos, havia uma linda e magnífica fazenda. Era um edifício de harmoniosas proporções, vasto e luxuoso, situado em aprazível vargedo ao sopé de elevadas colinas cobertas de mata em parte devastada pelo machado do lavrador. Longe em derredor a natureza ostentava-se ainda em toda a sua primitiva e selvática rudeza; mas por perto, em torno da deliciosa vivenda, a mão do homem tinha convertido a bronca selva, que cobria o solo, em jardins e pomares deleitosos, em gramais e pingues pastagens, sombreadas aqui e acolá por gameleiras gigantescas, perobas, cedros e copaíbas, que atestavam o vigor da antiga floresta. Quase não se via aí muro, cerca, nem valado; jardim, horta, pomar, pastagens, e plantios circunvizinhos eram divididos por viçosas e verdejantes sebes de bambus, piteiras, espinheiros e gravatás, que davam ao todo o aspecto do mais aprazível e delicioso vergel. A casa apresentava a frente às colinas. Entrava-se nela por um lindo alpendre todo enredado de flores trepadeiras, ao qual subia-se por uma escada de cantaria de seis a sete degraus. Os fundos eram ocupados por outros edifícios acessórios, senzalas, pátios, currais e celeiros, por trás dos quais se estendia o jardim, a horta, e um imenso pomar, que ia perder-se na barranca do grande rio. Era por uma linda e calmosa tarde de outubro. O Sol não era ainda posto, e parecia boiar no horizonte suspenso sobre rolos de espuma de cores cambiantes orlados de fêveras de ouro. A viração saturada de balsâmicos eflúvios se espreguiçava ao longo das ribanceiras acordando apenas frouxos rumores pela copa dos arvoredos, e fazendo farfalhar de leve o tope dos coqueiros, que miravam-se garbosos nas lúcidas e tranqüilas águas da ribeira. Corria um belo tempo; a vegetação reanimada por moderadas chuvas ostentava-se fresca, viçosa e luxuriante; a água do rio ainda não turvada pelas grandes enchentes, rolando com majestosa lentidão, refletia
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